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AQUI

"A vida teve 2 tempos, o tempo antes e o tempo depois. Não temos tempo para nada, já passou, e fico à espera do tempo que há-de vir."

Nos últimos dias do ano passado assisti a um espectáculo de dança na Malaposta. Fui convidada por uma amiga e deixei-me ir .

Consultei a Sinopse:

O AQUI é um espectáculo de dança cujo tema é o tempo. O tempo cronológico e o tempo interior, explorados através do cruzamento de linguagens, tecendo uma peça em que os sentidos e as emoções nos conduzem a um reequilíbrio constante.

Em palco, é criado um espaço de desafio, uma arena de olhares e de questionamento, que induz a reavaliação de quem sou Eu e de quem é o Outro.

O AQUI pretende ser um lugar de paragem nas modelações e encenações que a sociedade produz, numa procura constante do humanismo absoluto. Um espectáculo com uma narrativa por vezes fluída, por vezes fragmentada, onde se encontram mundos com diferentes circunstâncias de ser e de estar, onde confluem o risco e o afecto, o arrojo e a generosidade e se conquista um espaço de igualdade.

Interessante. E eu, curiosa, segui mais além. O espectáculo, com áudio descrição e linguagem gestual, é realizado pela CIM – Companhia de Dança, criada em 2007, numa parceria entre a VO’Arte e a Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa. A Companhia integra cerca de 100 pessoas, actores, interpretes, bailarinos, com e sem deficiência. Preparei-me para ser surpreendida. Entrei já no queimar do tempo, e sentei-me. Na plateia algumas cadeiras-de-rodas. No palco, uma intérprete gestual traduz, no delay possível, o que a Natália Luísa lê, nessa sua voz e tom de leitura muito próprio, reconhecível em qualquer parte. Fiquei a saborear as sílabas, amorosamente ditas no tempo certo, as consoantes a rasgar o quase silêncio do auditório, as sombras e os grafismos projectados no breu do palco. Por vezes, um enorme lençol, um separador de mundos, abria a fechava, corria de ponta a ponta, e permitia identificar vultos e sombras de apoio nas laterais. Apoio. Pensava que essa ia ser a palavra. Não foi.

No palco, a espaços, seres com e sem limitações enchiam o espaço. Movimento, o que poderia ser um penoso movimento, nas dificuldades da atrofia, foi dança. As cadeiras de rodas, bailarinas no espaço, rodopiavam, fazendo-me lembrar os jogos de basquetebol, mas indo muito além… As cadeiras encontraram posições alternativas, opostas, os sentados levantaram-se, os sãos sentaram-se. As costas caíram no chão, as rodas giraram no ar. Seres pegaram-se ao colo, seres suportaram-se. Pessoas riram-se, conversaram, ainda que em voz limitada. Sorriram com os olhos. Os surdos ouviram, os cegos viram. Habituados a desviar o olhar dos corpos sem coordenação, por pudor, para não magoarmos com o olhar, fizeram-nos, com a sua expressividade,  olhar, e ver, em cada um deles, em cada ser limitado ( e não o somos todos?), uma beleza muito própria. Braços, pernas, cabeças que se agitaram na proporção das suas capacidades…não, muito além das suas capacidades. E quando a perna não obedecia, havia uma mão para a acompanhar no movimento, sua, ou do outro. Sobre as cadeiras, acrobacias. Entre o frio metal e o quente corpo humano, todos eram dançantes. A música ajudava à dispersão do tempo. As frases, ditas no momento certo:

“A vida teve 2 tempos, o tempo antes e o tempo depois. Não temos tempo para nada, já passou, e fico à espera do tempo que há-de vir.”

E eles, a correr, a voar, saltar ou a arrastar-se, tomavam o público que os mirava sem pausa. Alguns sons desarticulados. Algumas expressões de alegria. Alguns olhares entre eles, como se a validar o trabalho executado. Se o braço não foi acima, agita-se a mão. Se as ancas não se libertam, mexe-se um pouco a cintura. Se correu desequilibrado, é porque correu. E naqueles corpos, alguns com sérias limitações, havia sangue a correr, vontade de fazer. E nós, seres sem limitações aparentes, que nos escusamos a olhar com medo de magoar, temos que aprender a ver a beleza que existe no movimento, a luta pela concretização. A palavra da noite não foi pena, não foi lamentação, não foi apoio. Foi dádiva. De corpos, de coragem, de combates ilimitados.

Uma fila de corpos, inteiros, mutilados, coordenados, desequilibrados, independentes, apoiados, saiu do palco, em inter-ajuda.

E a voz encerrou:

Aqui, neste tempo de nós, neste tempo do mundo, sou esta historia e já esqueci todos os outros que fui antes, aqui.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

2 Comentários

    1. Obrigada pelo comentário, mas acredite que não consegui expressá-lo de forma justa, ficou muito aquém do que senti, que às vezes as palavras não chegam para explicar o que se vai cá dentro. Um beijinho

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