Sem pé e sem tinta

Nascemos com a ilusão de que seremos todas Mona Lisas. Geometricamente perfeitas. Com pinceladas a seco. A partir do dia que nos vestem aquela bata tão odiada, deixas de ter criatividade própria e passas a pintar com as cores que a educadora dispõe. É óbvio que te ensinam a fazer misturas, a encontrar o tom mais adequado e que te explicam que se calhar uma árvore não tem o tronco amarelo. Mas vais continuar a achar que serás capaz de chegar aos calcanhares dos grandes pintores, que à vista dos outros só fazem pinceladas que não lembram a ninguém? Possivelmente não. Vais ter a primeira desilusão da tua vida, quando não souberem sem que tu digas o que aquilo representa e te perguntarem o porquê daquelas cores.

Por que não? A partir daí, aceitamos que nos comprem a primeira tela e o primeiro cavalete. Desprendemo-nos dos pincéis e das paletas de tintas e as mãos são as maiores auxiliares. Achamos que de cada vez que começamos a dar cor a uma tela que aquela será reconhecida mundialmente. Não que a façamos unicamente por isso. De facto, é algo que nos dá prazer nos primeiros minutos, enquanto não deixamos que a pincelada saía por fora do risco ou que a cor não acerte no tom correto. Pensamos que será a maior desgraça da nossa vida. E, por momentos, aquele que seria mais um momento de “relax” passa a uma irritação.

Quando crescemos sonhamos com a eternidade do colo materno, o beijinho antes de dormir e o rosto cansado protector. Pensamos que o ombro esculpido será a força electromotriz até à eternidade que podemos ver na Pietà. Com o passar do tempo, percebemos que não nos chega apenas a persistência da memória e que os relógios que temos sem pilhas em casa acabarão por derreter. Vais achar que a tua vida corre demasiado rápido. Que não tens tempo nem para lavar o pincel antes de mudar de cor. Acabarás por nem dar conta, quando estiveres à mesa com alguém que aquele poderá ser a última ceia. Mas não será grave. Novas trinchas surgirão.

O Grito. Esse resolverá tudo. Ou quase tudo, enquanto existir mãos. Ficar sem uma mão ou um pé? Sem um pé certamente. Não conseguiria sobreviver sem o membro que me permite dizer ao mundo o quanto irritada estou. Perfecionismo é perigoso. Querermos pintar aquela casa com fumo na chaminé que fazemos desde que somos pessoas agora em forma de duplex, é trágico. Frustrante no mínimo.

Um dia, num dos teus desenhos, acabarás por ficar pintada de amarelo. A tua casa terá um tecto azul ou as coisas não assumirão as formas corretas e isso não é grave. Nem gravíssimo. É unicamente uma questão de perspectiva. Porque a casa dos teus sonhos, a viagem da tua vida e até o teu próprio retrato és tu que pintas. Com as cores que vais tendo disponíveis e não com as da Robbialac que vais a correr comprar, porque estão em promoção.

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