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A fatídica mudança de turno

São quatro horas da manhã. E um guarda-noturno algures muda o seu turno. Tira o seu uniforme, guarda-o num velho cacifo ferrugento e cumprimenta o colega que irá entrar. O primeiro apaga a sua lanterna e guarda-a no mesmo cacifo ferrugento. O segundo traz a sua própria lanterna. A lanterna do primeiro tinha uma luz mais amarelada e brilhante, com partículas de luz a dançar. A lanterna do segundo parece ter um aspeto lunar, preenche os espaços escuros com luz, mas a sua cor azulada não permite uma visão tão exímia a olho nu.

Acabámos de entrar na mudança de turno do mundo. Não enquanto pessoas ativas, mas enquanto sociedade, enquanto cidadãos. Enquanto humanos. Temos de agora ver luz através de um olhar lunar e foi isso que muitos de nós fizemos. Foi isso que se passou neste 2020.

Um exemplo foi a iniciativa #InternertArtsFestival da companhia artística Bad Reputation Company, com lançamento de excertos exclusivos de peças, estreias de podcasts e temas musicais de pessoas das suas trincheiras. Além do mais, usou a hashtag #InternetArtsFestival para qualquer artista mundial publicitar o seu trabalho. Isto resultou numa autêntica biblioteca digital que se torna um documento online sobre estes tempos controversos de 2020 e sobre como a Arte foi aliada de dias melhores.

Um dos casos que segui de forma pessoal e próxima foi o caso do fotógrafo Nuno Tátá.  Criou projetos sobre violência doméstica, demência, depressão e sobre a figura feminina na sociedade e sobre o nu da figura feminina. E mudou a sua forma de trabalho. Por exemplo, arranjou um manto preto e modificou um pouco as suas sessões mantendo as normas de segurança. Fotografou até através de videochamada. Manteve um sol a brilhar na lua. Criou até o seu próprio website oficial nos momentos de quarentena em que não entrava lucro de sessões. Em homenagem a todos os artistas que mantiveram a atividade e lutaram pela arte no geral, deixo aqui o testemunho que também deixei no site dele, acerca do seu percurso enquanto artista e como até as nossas cicatrizes nos ajudam a crescer.

“Nuno Tátá nasceu nos anos 90, época de atitude rebelde por parte dos representantes de todas as artes e desportos, outra das suas paixões. Herdou traços de esforço e luta por parte da sua família paterna, principalmente do seu pai, que o marcou sem qualquer limite. Os tempos que passou com o seu pai foram eternizados em fotografias e foi nessa paixão por aquele bocado de infância feliz que o levaram a  ser um apaixonado por capturar momentos, paisagens e rostos, numa tentativa de mostrar que é possível imortalizar o ser humano e as suas ações em vida. O gosto por capturar a vida era tanto, que começou a tirar fotografias mesmo com os telemóveis mais primitivos, tentando aplicar o que via em filmes ou em desporto, com os ângulos e luminosidade certos. Com o tempo decidiu comprar uma máquina denominada profissional e tornou-se um autodidata que procurava crescer e melhorar a cada dia que passava, mesmo nos dias mais negros. No caso dele, não é o fotógrafo que salva os momentos fotografados. São as fotografias em si e essa arte, que o salvam. Até porque já lhe trouxeram pessoas e momentos que o levaram a ver dias mais limpos e solarengos. “

Podem ver o seu trabalho na página do Instagram ou através da página do Behance e a partir daí ver também as suas redes sociais. E convido também a pesquisarem a hashtag #InternetArtsFestival, com testemunhos artísticos daquilo que todos passámos e ainda passamos em conjunto.

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