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Ilha das Cores

Geografia política nunca foi o meu forte. Por isso, tenho uma profunda admiração por aqueles que vão muito além do conhecimento de países, capitais e cidades, línguas e dialetos, e parecem ter o mapa mundo na sua mão, mesmo quando se tratam das nomenclaturas ou curiosidades mais estranhas…. Vem isto a propósito dum país de nome invulgar, denominado Burkina Faso. Este país foi-me apresentado da forma mais surpreendente, sendo citado numa improvável discussão entre um professor de contabilidade, em plena aula de auditório cheio, com um aluno que se atreveu a corrigir o que tinha sido escrito no quadro.

O professor, sentindo-se desafiado na sua própria área, resolveu mudar a temática (e há lá maior confissão de ignorância?), e na tentativa de colocar o aluno no seu lugar, atirou em tom de gozo a provocação: “és muito espertinho, mas com certeza não sabes qual é o antigo nome dum país africano que é o Burkina Faso”. O auditório emudeceu, com pena do aluno que, apesar de ter corrigido de forma justa o professor, parecia não poder fugir à vergonha face a 4 turmas que enchiam o local. Mas, surpreendentemente, com um sorriso nos lábios, o aluno  respondeu: “Alto Volta”. Foi o espanto geral. Mas ainda assim, o professor, parecendo duplamente incomodado, ainda reagiu, numa última tentativa: “tiveste sorte, mas de certeza que não sabes qual a capital”. Silêncio. Respiração contida. Rufar de tambores nas nossas cabeças. E do meio do silêncio, ecoou um Uagadugu. Touché. Não faço ideia do nome do professor, nem qual era a desinteressante matéria, mas isto nunca mais esqueci.

No entanto, este é claramente um caso raro de alguém que verdadeiramente se interessa e estuda o mapa-mundo. No extremo oposto, estão comentários com que  tenho sido confrontada, que me deixam perplexa, e a relembrar com intensa concordância aquela frase que me ficou do filme Gaiola Dourada, quando o casal sai do hotel e a esposa insiste em fazer a cama: “há mínimos”! Aceito perfeitamente que não se conheçam todos os arquipélagos do Indico ou do Pacífico, ilhas distantes com que sonhamos e poucos conhecemos. Mas o seu próprio país já me parece mais grave. Muito mesmo.

Um dos erros que oiço frequentemente é a designada “Ilha dos Açores”. Não sei se ria ou se chore, mas só me lembro daquele programa infantil que passava na RTP2 denominado “Ilha das Cores”. Presumo que seja a isso que se referem. Outras vezes assumem que os Açores se resume a São Miguel. São 9 ilhas, é muita informação, e quem não a usa  vai-a perdendo nos caminhos da memória, mas ainda assim, pelo menos que se pense antes de falar.

No caso do arquipélago da Madeira o erro não é tão crasso, valendo o facto de a ilha principal ter o mesmo nome. Porto Santo surge um tanto ou quanto despercebido, a menos que se fale de férias e de praias. As desertas ainda surgem na memória de alguns, e mesmo o rocambolesco episódio do autodesignado principado, em meia dúzia de metros a que se convencionou chamar ilha, surge como folclore, mais do que conhecimento geográfico.

Outra noção fora dos mínimos é achar que as ilhas que compõem os arquipélagos da Madeira e dos Açores são do tamanho do Mouchão do Tejo na Póvoa de Santa Iria em horário de maré baixa: uma língua de terra estreita. Num dia destes precisei de uma localização detalhada e recebi a seguinte e minimizadora resposta: “Mas é mesmo necessário? Não são só 2 ruas?” Mal comparado, faz-me lembrar aquelas pessoas de mais idade que dizem que  a internet e seus conteúdos  “estão lá no computador”, como se bastasse ligá-lo e a informação pretendida aparecesse no ecrã por milagre, sem necessidade de busca ou direção. Mínimos, senhores, mínimos!

O contacto diário com os arquipélagos, por razões de trabalho, pôs-me as gentes e as ilhas no coração. Os diferentes sotaques, os relevos distintos, a vegetação frondosa e a vasta vida marinha, são motivos mais do que suficientes para respeitarmos estes territórios, e reconhecer-lhes a grandeza. E o direito ao bom nome, neste caso ao simples nome, deveria ser obrigatório. Até porque a Atlântida é muito mais do que uma teoria…

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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