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Só, solitário ou sozinho?

A moça sentou-se na esplanada do café. Pediu um sumo. Não pareceu esperar ninguém, não olhava em volta procurando alma, para saborear o aproximar dos passos. Não trocou qualquer palavra, excepto com o empregado do café. Não fez nem recebeu qualquer chamada. Passou a tarde consigo mesmo, rabiscando o livro. Ao escurecer rumou a casa, porventura sem que alguém a esperasse. Esta situação pode ocorrer numa tarde que guardou só para si, no retorno a si mesma, iniciativa sua, ou pode representar tão só uma solidão, porventura forçada. Estava só ou estava sozinha?

Com a idade aprendemos a estar sós. Mais do que isso, muitas vezes desejamos estar sós, mas esse desejo é opcional e de curto prazo. Gostamos da nossa companhia, precisamos descansar, queremos fazer as coisas à nossa maneira, mas é sempre uma opção, e obviamente prazeirosa. Isso não faz de nós um ser anti-social, faz de nós apenas um ser mais independente, mais auto-suficiente, um ser que se conhece melhor aos 40 do que aos 20. Gostamos de estar sós. No entanto, quase nunca gostamos de estar sozinhos.

Estar sozinho soa a abandono, a falha, a fracasso. Ressoa a vítima, a sofrimento,  ainda que de consequências incontroláveis pelo próprio. Não é uma escolha, é o sofrimento das repercussões de acontecimentos.

Em certo ponto da minha juventude, também eu fui uma pessoa só. Num mesmo tempo, perdi o meu avô com quem vivia, acabei um namoro, acabei um curso, comecei a trabalhar, e embora tivesse pessoas à minha volta, que me ocupavam algum tempo, não me traziam felicidade, não havia prazer de encontro ou identificação, não era compensador. Recordo-me de encarar o fim-de-semana com apreensão, sem um qualquer plano que me tirasse de casa, sem um convite, sem um telefonema. Foi a década dos casamentos dos amigos, das mudanças de cidade, dos retornos a casa dos amigos da faculdade. Algumas vezes obriguei-me a sair, encarando na ida ao supermercado o meu banho de gente que desaparecia ao fechar da minha porta, até voltar a sair na 2ª feira de manhã. Penso que todos, mais cedo ou mais tarde, passam por isso. Se fosse hoje, e porque a idade nos vai ensinando, teria sabido enfrentar essa situação de outra forma. Tive, nessa altura, o tempo que hoje me falta, para me dedicar ao voluntariado com a frequência que desejaria. Teria tido coragem de me afastar de pessoas que em nada me ajudaram, mas que eu não soube dispensar ao tempo. Arriscaria seguir os meus interesses. Hoje sou tão diferente, que às vezes penso que atravessei o deserto, e sobrevivi sem desidratação, que é como quem diz, sem ficar amarga, como sabiamente alguém me disse: não azedes enquanto esperas pela felicidade.

Facto é que à nossa volta, muita gente, e não apenas os idosos, sofrem de solidão.

No outro dia, alguém na casa dos 50, me dizia que tinha casa, que tinha bons carros, que tinha mais dinheiro do que alguma vez esperara, mas não tinha com quem compartilhar tudo isso. Divorciado, emigrado, compartilhou comigo que a vida dele se resume a casa – trabalho, que não tem actividades, que não tem amigos, que nem sequer fala bem a língua do país onde vive há 5 anos. Como sair deste ciclo? A internet veio criar um falso sentimento de convívio, e pelo que me disse, num dia regular, chega a casa, faz o jantar e fica no computador ou a ver televisão até adormecer. Que está habituado, diz ele. Habituado, mas infeliz. Há uns dias disse-me que se inscrevera numa escola de línguas, o que o fará criar melhores capacidades de expressão, mas também conhecer gente nova, não necessariamente um amor, como pretende, mas quem sabe amigos que lhe alegrem os dias. Fiquei satisfeita por reagir à sua solidão, modificando as rotinas, saindo da monótona mesmice dos dias. Deu-lhe luta.

Outro caso que conheço, embora mais novo, tem um dia-a-dia igualmente de casa-trabalho, mas neste caso sem disponibilidades financeiras. Trabalhador-estudante, com dificuldade em cumprir horários da faculdade, vai enfrentando cada dia como uma prova dura. Noites curtas de sono, esforço físico, moedas contadas. Ao fim de semana dorme dia fora, da exaustão da semana, estuda, prepara jantares para comer à meia-noite quando chega a casa. Devido à carência de dinheiro, não costuma sair, numa cidade onde não conhece ninguém, não vai a um café, a um cinema, à praia, a um jantar com os amigos que não tem. A solidão serve-lhe de carapaça.

Os anos passam e as pessoas sós permanecem sós. Habitualmente são pessoas recatadas, que não comunicam com os vizinhos, ou com aqueles que encontram repetidamente no metro ou no café do bairro. São pessoas que se habituaram, da pior maneira, a estarem sozinhas, e que muitas vezes não pensam valer o esforço de sair de si mesmos, nem vêem como. Possamos estar atentos às solidões alheias, e ajudar aqueles que nos estendem a mão com o olhar. Se assim, obviamente, o quiserem.

Os Solitários

No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua.

Marcel Proust, in À Sombra das Raparigas em Flor

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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