Pergunta simples ou nem por isso:

Se a arte for o verbo

Imaginemos que a arte é uma projecção da realidade de alguém. Imaginemos também que o acto de humanizar a vida é o assimilar de características mais empáticas, uma maior consciência e compreensão pelos outros humanos e seres.

Partindo destas duas ideias iniciais, acrescentemos alguns factos:

  • Demonstrações artísticas acompanham-nos desde o início da humanidade: na forma como pessoas se vestem; narrativas de acontecimentos; utensílios que podiam ser somente práticos, mas que se tornavam ornamentados; etc.
  • Através da arte conseguimos marcar períodos da história – bons e menos bons – inclusive dar nomes a esses mesmos períodos: chamámos-lhes de Movimentos Artísticos.
  • A cultura de um povo é a junção de várias demonstrações artísticas (e não só) que nos torna mais fácil identificar as suas características.

Se a arte for inevitável

Quando falamos em arte falamos num colectivo de práticas. É importante reflectir brevemente sobre isto porque enquanto escrevo este texto, na minha mente, posso estar a pensar em poemas. O leitor pode estar a pensar em filmes de cinema. Outro leitor do outro lado do mundo pode estar a pensar em música.

Então, pensemos todos juntos que a arte a que me refiro neste texto é um conjunto: poesia, cinema, música, pintura, dança, desenho, oratória, teatro, fazer bolas de sabão, cerâmica, dizer piadas, fazer um ramo de flores, construir uma cadeira e outras práticas que o leitor possa querer acrescentar aqui.

Todas estas acções aliadas à intenção de expressar um sentimento, relatar algo, revelar, dar e receber prazer em no expressar de uma opinião – chamemos-lhe de intenção: é uma prática com intenção estética de expressão.

Não temos de fazer da arte o que ela não é

Esta ideia faz-nos pensar que se calhar esse pode ser um primeiro propósito da arte: tornar-nos mais humanos.

As manifestações artísticas quase nunca são obrigatórias, geralmente são necessárias e acontecem. Ninguém é obrigado a criar algo e a chamar-lhe arte, a não ser que queira. É o livre arbítrio na sua melhor representação.

Ai, o que a arte nos faz à cabeça

Existem pessoas dedicadas ao estudo dos efeitos da arte no cérebro humano, como é o caso do neurocientista Semir Zeki que tem realizado testes pioneiros, como por exemplo examinar o cérebro de voluntários enquanto observavam obras de arte.

Semir descobriu que existe uma área do nosso cérebro que reage ao observar determinada obra de arte e, por acaso é a mesma de quando estamos apaixonados. Descobriu que existe um aumento repentino de dopamina, a substância química do “bem-estar”, no córtex orbifrontal, zona envolvida nas sensações de prazer, desejo e afecto.

Podemos de alguma forma concluir que a ciência confirma alterações químicas no nosso relacionamento com a arte e as alterações tendem a ser sensações que provocam sentimentos que podem levar a pensamentos e pontos de vista mais carinhosos e compreensivos com outros.

O que a arte realmente pode ser: unificadora

Talvez a sua subjectividade faça com que quando discutimos uma peça, raramente nos desentendemos. É onde passa a existir respeito na opinião contrária. É onde buscamos mais entender o outro e o porquê de alguém gostar e sentir algo que eu não sinto ou gosto. É onde nos juntamos com um propósito.

Em último caso, são práticas de manifestos pacíficos da mente que até podem relatar situações que seriam difíceis de se conversar ou verbalizar e que, quer queiramos ou não, nos fazem libertar dopamina e deixar-nos num estado mais susceptível à compreensão e empatia.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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