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O dia em que a Jane Austen destruiu o meu toucador

Adoro as obras clássicas da literatura. Encanto-me com as histórias de amor conturbadas que desafiam a razão. Por isso, durante muito tempo, sonhei viver noutra época, no meio do campo, com um toucador no quarto, quatro irmãs românticas e uma tia chata. Claro que a responsável por todas estas fantasias foi a Jane Austen. Mas recentemente esta criadora de universos invejáveis virou do avesso o meu mundo imaginado, com uma obra mal-amada. “O Parque de Mansfield” advertia, na contracapa, que aquelas páginas não contavam o tipo de história a que Jane habituara os fãs. Não quis saber e mergulhei, sem piedade. O título deste artigo já revelou a consequência.

“O Parque de Mansfield” inclui, de facto, uma tia mesquinha. No entanto, tudo o resto é demasiadamente similar ao mundo real. O resultado é que, por mais que queiramos que o bad boy se renda sinceramente ao coração terno da protagonista, isso nunca vai acontecer. Em Mansfield, os caracteres tendencialmente perversos não se emendam. E as personalidades fracas são influenciáveis até ao fim.

Sem reviravoltas ou uma evolução digna de um clássico, o dia em que fechei aquele livro pela última vez foi o dia em que confirmei algo sobre o qual tinha vindo a matutar: ler é bom, quando nos tira do mundo em que estamos. É por isso que fujo de biografias e de histórias que pretendem ser descaradamente pedagogas. As aprendizagens trazidas pela arte são um acréscimo. Um ótimo acréscimo, sem dúvida, mas assimilamo-las melhor, quando não as esperamos.

Jane Austen

Vai ser difícil superar o confronto com a realidade a que a Jane me expôs e juntar os pedaços do toucador destruído. Contudo, pelo menos agora, estou consciente de que não há mal nenhum em escolhermos ler, ver e ouvir as obras de arte que nos entusiasmam. Por mais longe da terra que estejam e por mais repetitivas que pareçam, são essas escolhas que criam momentos que valem a pena. Ir atrás do erudito só porque sim dá trabalho e torna‑nos irreais.

Antes que destruam o toucador para o qual gostam de escapar, não se importem se revêem sete vezes os episódios de “Friends” ou se o único livro da Jane Austen que querem ler é o “Orgulho e Preconceito”. Se vão passar horas embrenhado naquele mundo, é bom que ele mexa com as vossas entranhas.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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