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ContosCultura

Matisse – Parte II

Livro atrás de livro, todos eles foram lidos, analisados, estudados e catalogados por MV30110.CON1921A. E todo o conhecimento impregnado em cada letra e em cada palavra, ele recebia-o. Não decorava, não precisava de o fazer, apenas e tão só aprendia, entendia e absorvia o conhecimento com a maior das naturalidades. Mas o despertar da sua curiosidade fez-lhe colocar mais questão do que as que cada livro levantava.

Matisse percebeu que o seu pequeno defeito deu-lhe algo tão humano que nunca antes sentira: o desejo de conhecer e de ver com os seus olhos o universo de que tanto já conhecia.

O primeiro sinal de alerta foi dado perante a percepção das conversas tidas entre Matisse e o mercador. No Centro de Control Populacional tais conversas não passaram despercebidas. Agentes foram destacados pela Cúpula para o seguir de perto mas nas semanas seguintes nada tiveram a reportar. O comportamento de Matisse seguia os trâmites para o qual ele fora gerado, refletidos num quotidiano banal e igual dia após dia.

Ainda assim ele continuou a ser seguido. A sua importância, como a dos seus pares, era intocável por ser o garante da superioridade do ser humano num Universo cada vez maior e diverso. Por neles se condensar todo o conhecimento, todos os cuidados eram poucos.

Apenas em tempo de nova visita do mercador o controlo se adensou. Matisse sabia-o. Todo o conhecimento que já possuía a par do despertar da sua curiosidade fizeram-no acordar de uma espécie de letargia e seu foco derivou do bem geral para si como indivíduo. Mas tanto conhecimento também permitia-lhe saber que deveria esconder isso. Exerceu as suas funções com rigor não alterando qualquer comportamento que pudesse ser percepcionado, por isso quando encontrou o mercador para receber novos volumes de livros, tratou-o como sempre, não fugindo a uma breve conversa com um par de questões pelo meio. Numa delas disse:

Não reaja às minhas palavras, leve-me consigo na próxima entrega.

Mas como? – Questionou o mercador.

A Ordem do Tempo de Carlo Rovelli, livro que leva de volta, encontra na página 7 uma gota do meu sangue e um código bio-humano. No planeta Lário no quadrante V7 do espaço galáctico fazem-lhe um clone. Traga-o antes de o despertarem.

Demasiado perigoso! Os meus negócios…

Com o que ensinarei jamais terá preocupações com os seus negócios de mercador.

Tão depressa como iniciou a conversa, Matisse a terminou. Ninguém se apercebeu. No Centro de Controlo apenas viram um contacto igual a todos os que antes ocorreram entre o mercador e o espécime MV30110.1921A. Matisse sabia que apenas isso eles sabiam, e o maior receio da Cúpula estava a acontecer sem eles se aperceberem, um dos seres mais inteligentes do universo, por eles criado com mecanismos Bio-Humanos para exercerem total control sobre ele, ganhara consciência própria para além do que para o qual fora gerado.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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