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Borderline Literário

A edição literária em Portugal é um caos. As grandes editoras não dão espaço para novos autores. O mercado é atualmente dominado por cadeias literárias que são – literalmente – impossíveis de alcançar para os autores desconhecidos – por mais talentosos que estes sejam.

Basicamente, o mercado é controlado pelas editoras tradicionais – de acesso, impossível – e pelas vanity-press, as impressoras gigantescas que publicam centenas de livros por ano a troco de dinheiro. Não há meio-termo, Portugal sofre de uma espécie de síndrome de borderline literário.

É óbvio que se formos filhos de fulano, sobrinhos de sicrano ou parentes em quarto grau de beltrano, temos muito mais possibilidades de vermos os nossos originais serem lidos pelos melhores editores. Ou então basta-nos participar no próximo reality show – que privilegiar as nossas mamocas – e um livro torna-se a coisa mais fácil de publicar.

Vivemos num país em que não precisamos de ser médicos para sermos doutores, mas precisamos de ter nome para sermos escritores, isto é, escritores que não precisam de tirar do próprio bolso para serem publicados, porque qualquer um que pague hoje pode escrever e publicar. E tão triste como não termos créditos perante as grandes editoras, é vermos trabalhos sem qualquer potencial serem publicados por empresas que não publicam literatura, mas um amontoado de palavras, se o autor se dispuser a abrir a carteira.

É este desequilíbrio que me corrói a alma. Há, sem dúvida, bons escritores desconhecidos à espera de uma oportunidade, que quando encontram uma editora que pede um valor monetário, até aceitável, aceitam o desafio de verem o seu sonho torna-se palpável, real. No entanto, este género de publicação de acesso cada vez mais fácil vai denegrindo a literatura no nosso país. Não é que eu não ache que toda a gente deva realizar os seus sonhos, mas se eu sonho fazer uma perfomance no ballet clássico russo e só tenho dois pés esquerdos, resta-me o bom senso de me preparar e trabalhar mais para chegar ao próximo nível.

O resultado destas publicações pagas traduz-se em livros mal paginados, sem revisão, com erros crassos e imperdoáveis de concordância, gramática, pontuação e afins, erros que matam qualquer autor à nascença, o nosso original sem o mínimo de estrutura e maturidade chega às mãos dos grandes editores e é rasgado. Próximo. Imaginem o gajo mais expert de uma editora de renome a ler algo como «Olá, chamo-me Isaura e tenho vinte anos. Nasci no Porto e escrevi este romance porque gosto de falar sobre o amor», a sério, Isaura? Escreves uma biografia em primeira pessoa e apedrejas os editores que não te responderam?

Interesses. O mundo rege-se por interesses. Ninguém quer saber se escreves bem, se ganhaste muitos prémios e se lês Bukowski. Interesses. Comissões. O dinheiro a abundar nos bolsos e faz-se um livro.

A proliferação das vanity possibilita que qualquer pessoa se torne escritor, desde que pague uns absurdos dois mil euros. É claro que para quem tem talento esta é uma forma de chegar ao mercado, de começar a perceber o estado da edição em Portugal, estudar as possibilidades e investir até que o seu dia chegue.

Iludi-me várias vezes nesta caminhada, deixei que me matassem antes mesmo que eu pudesse ser gerada, até que esperei, aprimorei-me, fui paciente e responsável. Escrevi. Escrevi. Escrevi. Não parei de escrever. A minha hora haveria de chegar. Alguém haveria de me ler e dizer «esta miúda vale a pena».

Mudaria muita coisa no meu percurso, mas não mudaria esta vontade que me come a carne e me lixa os ossos, que me atravessa o corpo como uma cicatriz, de uma ponta à outra, e me faz escrever.

Antes morrer pela escrita, do que morrer pela falta dela.

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Letícia Brito

22 anos. Escritora e fotógrafa. Autora dos romances, Nos Braços do Vagabundo e O Dia em Que Chegaste. Bloguer no Minha Querida Isabel onde reúne mais de 122 mil leituras. Apaixonada por gatos e cinema mudo. Leitora compulsiva.

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