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Contos

Verónica

Estava sozinha naquela casa que não era minha.

As paredes eram grossas e escuras e as fissuras do tempo manifestavam-se através dos tijolos vermelhos e partidos, que teimavam em espreitar por entre o cimento cinzento e gasto.

Ao olhar para elas, lembrei-me, não sei bem porquê, de árvores. Da mesma forma que se contam os anos mediante os anéis da madeira, também eu, quase que conseguia contar o tempo através das camadas de tinta sobrepostas umas por cima das outras: branco, azul, verde, amarelo e outra vez branco. Uma cor a cada 10 anos, seria?

Havia uma única janela situada na sala e coberta por um trapo de renda branco, esburacado e sujo que num passado longínquo deveria ter sido uma cortina.

– Verónica, estás bem? Pareces-me distante…

O João (sempre-preocupado-comigo) encaixa que nem uma luva na alcunha que lhe atribuíra há uns anos. É um querido! Sempre disponível, sempre a tentar arranjar uma solução para os infinitos problemas da minha vida. Não a conseguiria imaginar sem ele mas, infelizmente, nunca o vi da mesma forma que ele me vê a mim. Serei sempre a sua vontade retraída, a sua mais fatal atracção, o seu amor não correspondido. E embora as nossas vidas tenham seguido caminhos diferentes, aqui está ele, em mais uma crise da minha história, pronto para me dar colo. Ainda assim, naqueles momentos que me sinto um vaso prestes a quebrar, é inevitável não pensar se teríamos sido felizes juntos. Seria ele a resposta para as minhas aflições? Para os meus dramas? Para o amor?

– Tudo bem, João. Estou só enjoada.

O cheiro nauseabundo que se fazia sentir inundava-me as narinas e revoltava-me as entranhas. Quase vomitei.

Conseguia identificar nitidamente o fedor a urina velha, lixo e bolor. Tudo tinha ficado a apodrecer naquela casa, inclusivamente o corpo dela ali deitado, jogado, sem vida…

Como se morre assim? Sem que ninguém repare, sem que ninguém sinta falta?

A boca estava entreaberta e sem dentes, os olhos fechados como quem dorme e o corpo desamparado no chão. Caiu e ali ficou à mercê do tempo.

O tempo, mais uma vez, o tempo!

Somos crianças e queremos ser adultos, ambicionamos a maioridade como quem deseja um dia de praia num mês de Verão. Passamos pela conturbada adolescência entre cigarros, álcool e virgindade, para chegarmos a adultos e percebermos que só queremos fugir da responsabilidade que o estatuto confere.

O tempo sempre foi, na mesma medida, o meu inimigo e o meu aliado. Tantos planos que nunca se concretizaram, tanta angústia despejada em lágrimas. Tanta desilusão criada pelas expectativas de quem quer o mundo, e só consegue uma sala de cinco metros quadrados, dividida em quadrados de pequenos nadas.

Fui arrancada dos meus pensamentos quando senti um calafrio percorrer-me o corpo. Ia jurar ter visto a boca da velha mexer-se.

Olhei para cima e respirei fundo na esperança de aclarar as ideias, mas o odor, agora ainda mais intenso, fez-me tossir com força e quase vomitar, novamente.

Sai dali. Fui às traseiras da casa apanhar ar. Sentia, de alguma forma, que não estava só e essa sensação estava a prejudicar-me, claramente, o juízo e a percepção do mundo real.

Subi as escadas e deparei-me com um sótão. Entrei. Era pequeno, húmido, escuro.

A porta fechou-se atrás de mim e a única luz existente saía por entre a brecha de uma telha.

Percebi, imediatamente, que tinha ficado trancada. O meu coração pulava, furioso, dentro do meu peito.

– João? João? Onde estás? Por favor, pára com isso! Não estou para brincadeiras. Abre a porta! Abre a porta, já! João???

Ninguém me respondeu. Mas porquê? Ainda há pouco ele estava comigo…ou não estaria?

Estaria eu tão habituada a tê-lo como tábua de salvação da minha vida que o imaginei aqui comigo?

Voltei a chamar por ele. Voltei a ficar sem resposta.

Virei-me, lentamente, para dentro daquele buraco escuro, o coração continuava a pulsar-me no pescoço e senti a veia jugular a latejar.

Gelei, apesar do calor lá fora.

O corpo da velha estava ali.

Fechei os olhos com a força de quem quer afastar um pesadelo.

– Isto não é real! Isto não é real! – Sussurrei.

Completamente inerte, soltou-se-me um grito grave, mas estridente, consequência do terror que emanava do meu corpo trémulo e transpirado. Senti as calças ficarem quentes e húmidas. Nunca tinha sentido tanto medo na vida.

A velha abriu os olhos, olhou-me fixamente e sorriu.

– Quem és tu? – Pergunto-lhe, com um grito, como quem ainda espera uma resposta lógica.

– Tu – Responde-me uma voz vinda do fundo da casa, do telhado, das paredes, do chão, de mim…

Cinquenta anos depois deste dia, aquela velha deitada no chão daquela casa que afinal viria a ser minha, era eu!

Susana Correia

Algarvia de gema, nascida sob o signo de peixes, com o qual pouco se identifica. Acredita que tudo acontece por um motivo, na força e no poder do pensamento e em energias positivas e negativas. É autora dos livros infantis "A Aventura da Pulguinha Aurora", "Aurora Pelo Mundo Mágico da Amizade" e "De Pernas P'ro Ar", e do blogue "Pózinhos de Perlimcóco". É, ainda, coautora da coletânea "O Tempo das Palavras com Tempo" com o conto "Por Ti". Um dia perfeito é passado na natureza com a filha como companhia, a máquina fotográfica, um livro e as folhas secas de outono.

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