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E tu, tens o que mereces?

É cada vez mais frequente, quer através do nosso discurso, quer através das redes sociais, proferirmos frases feitas, sobre as quais nunca ponderámos o verdadeiro significado e que assumimos como se fossem verdades absolutas. E essa será, talvez, uma das coisas mais idiotas que nós, seres dotados de inteligência, podemos fazer.

E das muitas frases que me vêm à cabeça, decidi debruçar-me sobre a famosa “cada um tem o que merece”.

Não raras vezes, esta frase é proferida com uma certa mágoa ou despeito em relação a alguém a quem aconteceu algo negativo, mas que entendemos como sendo merecido .

Ora, se na verdade “cada um tem o que merece”, gostaria de pedir aos iluminados que gostam de evocar esta verdade suprema, que justificassem o que fizeram as crianças que morrem de fome ou que são maltratadas e violadas para merecerem tamanho castigo.

O que fizeram tantas mulheres de tão terrível para merecerem serem mortas ou abusadas sexualmente às mãos dos homens? O que fizeram de tão terrível as pessoas que todos os dias enchem as enfermarias de oncologia dos hospitais, pelo mundo fora, para morrerem aos poucos e de forma agonizante? Ou até mesmo a todas aquelas pessoas que por serem tão más, se juntam no mesmo avião para se estatelarem cá em baixo, sofrendo, de forma horrível, o que ninguém merece sofrer nos seus últimos segundos de vida.

Bom, é natural que os mais crentes na reencarnação nos venham dizer que estão a pagar pelos males de outras vidas.

Que Deus misericordioso seria o nosso se achasse que uma criança em África merece passar fome e sede, sofrer de doenças e morrer antes da idade adulta, apenas para ascender na sua evolução espiritual?

Quão melhor não devemos ficar, para regressarmos numa outra vida, depois de tanto sofrimento?

Não, ninguém tem o que merece! Pelo menos, não naquilo que de negativo possa acontecer. Este tipo de frase só denota mesquinhez, vingança, inveja e falta de empatia para com os outros. Se a vida se fizesse das justiças divinas, não precisávamos de tribunais.

Vangloriarmo-nos do mal que acontece aos outros, ainda que estejamos magoados com alguém, só demonstra que, então, somos nós que não somos merecedores de absolutamente nada.

No entanto, “se cada um tem o que merece”, que o digamos, apenas e só, quando lhes acontecer algo de bom – altura em que infelizmente nos enchemos de inveja – e paremos de dizê-lo como grito de vitória sempre que alguém à nossa volta se prejudica.

Balthasar Sete-Sóis

Balthasar Sete-Sóis, sociólogo, escritor, cronista, radialista e crítico literário encontra nas letras e na comunicação a realização e o sentido para aquilo que o rodeia.

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