Pretérito Imperfeito

Eram amigos há tanto tempo que nem se lembravam quando se tinham conhecido. Brincavam juntos, andavam na mesma escola e tinham planos de futuro muito diferentes. Um queria ser cirurgião, cortar e coser pessoas e o outro queria ir à Lua, chegar cada vez mais longe. Crescer era inevitável e ficaram rapazinhos bonitos, atraentes e conquistadores.

Chegaram o tempo das namoradas. Sem o saberem, as meninas tinham o mesmo nome. Conheceram-se. Não simpatizaram uma com a outra, mas suportavam-se. Exercícios de vida. Saíam juntos muitas vezes e nunca houve desavenças nem complicações. Elas iam-se adaptando.

Uma era convencional e a outra selvagem. Uma tinha a vida planificada e a outra não tinha amarras. Tão diferentes e tão iguais, num caminho de total incerteza, como a idade permite. Os namoros ficaram sérios e os sentimentos mais apertados. Tinham muito que viver, mas os passos estavam a ser dados.

Era a época das experiências, das transgressões, do testar as barreiras e formar da personalidade. Tem o nome de adolescência e marca para toda a vida. Os planos de futuro começavam a ser feitos. Faz parte. Não quer dizer que se concretizem. As raparigas que tinham nome igual faziam planos distintos e continuavam a afastar-se. Um dia tudo mudou. A madrasta da vida pregou-lhes a mesma partida: iam ser mães. A convencional desesperou, a selvagem pensou.

Os amigos tiveram atitudes diferentes ao ouvir a notícia. Um aceitou, assumiu e rejubilou, o outro rejeitou, ignorou e afastou-se. Um chegou ao céu da vida, ao ser pai, ao seu prolongamento, o outro recusou-se a crescer, quis cortar para depois coser e apagar as provas do que tinha acontecido. Estavam no estágio da vida, nas provas iniciais. Um teve êxito e o outro reprovou. As namoradas, então, num momento tão frágil e doloroso como aquele, uniram-se e apoiaram-se. Queriam ficar com os namorados, ser felizes.

O astronauta deu a mão à mãe do seu filho, guiou-a e levou-a pela vida fora. Tiveram mais filhos, ficaram juntos, superaram as dificuldades, concluíram as provas de vida. O cirurgião assustou-se e virou costas, não quis saber. A vida ainda era fresca e precisava de experimentar, ter outros voos que tocassem novos horizontes, que lhe dissessem que podia continuar. Separaram-se.

Os amigos já não são adolescentes, mas continuam a falar-se. Seguiram outros rumos, outros caminhos, outras estradas que apareciam à sua frente. São adultos com vidas estruturadas. O que queria ser astronauta continua com a menina que, um dia, ficou grávida dele. Têm 3 filhos e são cúmplices numa vida que não foi planeada como desejavam. O que queria ser cirurgião tem vários filhos, de namoradas diferentes, e nunca mais quis saber da primeira que lhe deu um filho.

As raparigas, que têm o mesmo nome, continuam a falar-se e são amigas. A vida assim as obrigou. Partilharam um momento forte e uniram-se. Os amigos, de nomes diferentes, têm a mesma profissão, mas nenhum concretizou aquilo que tinha em mente. Tornaram-se bons profissionais e bons pais, mas seres humanos diferentes.

Um é bem resolvido, instalado na vida sem ressentimentos, o outro tem aquela mágoa escondida sem que os outros saibam. Tenta sempre escondê-la, mas ela insiste em voltar. Elas passeiam os filhos, juntas, conversam, partilham e vivem conforme planificado: uma, de modo convencional, casada e mãe a tempo inteiro, a outra, selvagem, livre, sem amarras e mãe solteira e independente.

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