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O Imigrante de Schrodinger

Schrodinger tentou explicar física quântica, algo com uma lógica altamente contra-intuitiva, com a referência a um gato, veneno e uma caixa. Quase toda a gente continua a não perceber essa história das probabilidades e sobreposição, mas toda a gente sabe que o gatinho está vivo e morto.

Por isso, quando o termo Imigrante de Schrodinger começou a aparecer na net, foi rapidamente adoptado. Atribuído a um estudante de Doutoramento, Jon Murphy, a responder a um post que apontava a contradição na atitude anti-imigração americana, de justificar a oposição aos imigrantes por roubarem empregos e justificar porque não trabalham e vivem de rendimentos dados pelo Estado.

Esta atitude de dissonância cognitiva entre dois argumentos lembra parte da análise de Humberto Eco de elementos comuns a diferentes fascismos, na sua definição de Ur-fascismo. Identificou como os partidário desses movimentos são normalmente frustrados por uma humilhação de achar o “inimigo” mais forte e bem sucedido, o que reforça a raiva, ao mesmo tempo que os movimentos dependem de criar a crença de se poder conquistar esse mesmo “inimigo”. Assim, graças a um contínuo ajuste da retórica, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais, conforme a conveniência.

No fundo, é ter razões para negar a imigração. Se não se quer assumir o racismo e a xenofobia, que são emocionais e não têm qualquer base objectiva, não sobra nada. Para discutir procuram-se criar argumentos.

O assassinato de Ihor Homeniuk, as travessias em Ceuta, os imigrantes em Odemira ou a nova “prisão” do SEF, são reflexos de um desequilíbrio económico que interessa a muitos. A criminalização da imigração reflete-se em menos direitos e visibilidade àqueles que imigram, permitindo uma exploração superior aos trabalhadores que se sentem cidadãos, aqueles que supostamente ficam sem emprego devido aos imigrantes. Ou seja, a exploração é o problema, não o desespero que leva as pessoas a aceitar condições de trabalho muitas vezes sub-humanas. Se o imigrante tivesse direitos e voz, o cidadão teria várias vantagens em relação a eles, como a língua, o tipo de formação, redes de contactos, apoio familiar, etc.

Contudo, a outra parte do Imigrante de Schrodinger é receber apoios indevidos. Ninguém que não tem contrato e não declara rendimentos tem direito a apoios do Estado. Em 2019, os imigrantes contribuíram 955 milhões para a Segurança Social, e só receberam 111 milhões. São também um factor de crescimento da economia, pois, como todos nós, têm de consumir, justificando a criação de mais empregos, dando dinheiro a empresas e pagando impostos sobre consumo.

Os países com economias fracas perdem população activa por não terem infraestruturas, mas sem infraestruturas, sem forma de explorar para si próprios os recursos materiais, e perdendo população activa, a corrente da imigração continua presa num sentido único. Como Portugal.

As notícias recentes sobre a imigração, ou a atenção mediática na questão da imigração da Síria em 2015 e 2016, são apresentados fora do contexto de muitos movimentos tornam-se invisíveis, ignorados nas rotas estarem bem definidas. A agressividade do ex-Ministro do Interior Italiano, Matteo Salvini, e a solução da União Europeia de usar a Turquia (um estado que não respeita direitos humanos dos seus próprios cidadãos, especialmente os curdos) como tampão aos movimentos de migração mostra a vontade de esconder a exclusão, da segregação, do estigma e da precariedade, mas não de os resolver.

A caixa do Imigrante de Schrodinger é um espaço que o capitalismo usa para ignorar as leis de cada país. Não se devia culpar o gato.

Nota: Escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Telmo Alcobia

Telmo Alcobia nasceu em Lisboa, 1980. É licenciado em Pintura ( FBAUL 1999-2004) e Mestre em Desenho ( FBAUL, 2006-2009), além de várias formações complementares. Expõe em colectivo e individualmente desde 2001. Além da pintura contemporânea e arte mural, e ilustração, já escreveu artigos, para a revista Umbigo e outros. Actualmente faz parte do Grupo POGO, e trabalha com a Galeria António Prates e o Centro Português de Serigrafia.

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