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Crónicas

Quem te manda a ti, sapateiro, escrever tão bem?

Motivações e histórias dos não-profissionais da escrita

No passado dia 19,  alguns dos articulistas desta redação juntaram-se para conversar. Foi on-line, conforme mandam os procedimentos covidescos, mas poderia – e deveria –  ter sido numa mesa de café, tal o tom descontraído e mesmo hilariante da conversa. Éramos 6: eu, a tentar dar rumo a 5 almas, mais ou menos irreverentes: o António, o Bruno, a Margarida, a Rita e a Sofia. Digo tentar, porque como acontece entre pessoas que partilham os mesmos interesses, a escrita, no caso, a conversa flui e ganha vida própria. Dei por mim a deixá-los seguir na risota, como uma professora ou uma mãe que lhes acha graça mas não quer perder a compostura, coisa que perdi em menos de nada, e rendi-me ao coro de riso fácil e saudável.

O directo, realizado no Instagram da minha página de autor, tinha um objectivo: conhecer estas gentes que não fazem da escrita profissão, mas que a exercem de forma extraordinária, em paralelo com trabalhos remunerados, muitas vezes pro bono. Porque o fazem? O que os motiva? Como são vistos pelas famílias, amigos e colegas?

As vidas profissionais são o mais diversificadas, passando pelo ensino, marketing, seguros e mesmo forças militares. As vidas pessoais, também: jovens, menos jovens, casados, solteiros, com filhos, com animais. Os temas de escrita igualmente diversos, cada um a seu jeito, mais ou menos mordaz, humorístico, observador, macabro ou simplesmente um mix de todos eles. Isto os diferencia. Então, o que os une?

A maioria começou a escrever de forma descomprometida, muitas vezes em forma de diário, no caso das meninas, e foi por insistência dos amigos com quem partilhavam alguns dos seus textos que resolveram tornar pública essa actividade. Muitas vezes foi a forma encontrada para a descompressão e para a catarse. Alguns criaram blogues, páginas, outros escrevem em revistas ou jornais, textos para teatro, ou concorrem (sendo premiados algumas vezes) em concursos de contos, ou então cozem livros em lume brando, à espera de uma labareda.

O bichinho existe e não dá descanso, e a vontade de escrever vem sempre ao de cima, por entre períodos pessoais mais difíceis ou intensos. Pode esmorecer, mas é como o verdadeiro amor, nunca se esvai. E volta, com o sarcasmo, o humor ou a reflexão a transbordar dos dedos para o computador ou o papel. O cérebro é inquieto, e por vezes acorda-os de noite com uma ideia nova ou com o apurar de um texto da véspera. A escrita não lhes dá descanso, nem o querem. Na diversidade, o ponto de encontro entre estas gentes é a Repórter Sombra.

É comum o interesse pela escrita e pela evolução desta. Querem apurar-se e divertir-se, já agora. Gostam do retorno que vão tendo do público, nem sempre concordante, mas gerar o debate é prova da sua perspicácia e capacidade de chegar aos leitores. Recebem mensagens de outros autores. Criam redes de apoio, vigiando-se de forma carinhosa nos erros e nas falhas que são faladas em sussurro numa mensagem particular, longe do público comentário humilhante na página. Pede-se opiniões sobre os artigos. Criam-se amizades que excedem a escrita, preocupam-se com a família alheia, com os projectos alheios. Respeita-se o trabalho do outro. Fazem-se parcerias.

São quase todos articulistas (perdoem-me o uso repetitivo desta palavra que adoro, como se saboreasse as sílabas) de maratona, de longa duração. Coexistem com articulistas sprinter, mas não se distraem no seu caminho. Permanecem na Repórter Sombra.

Os outros, os que com eles partilham a vida, reconhecem com surpresa e alegria as suas capacidades, como se de uma segunda vida se tratasse, longe do corriqueiro dia-a-dia. Procuram os seus artigos, seguem-lhes as páginas, incentivam-nos. Alguns não hesitam em ostentar o seu orgulho no amigo, familiar, colega.

O ambiente na redação, ainda que não convencional e física,  é francamente bom, a que não é alheio a cumplicidade e a compreensão da gerência. Mesmo esta tem a capacidade de ver em cada um o seu potencial, e se há um tema especifico a ser desenvolvido, há um profundo conhecimento dos autores, que permite apontar de forma cirúrgica a pessoa mais adequada a essa tarefa, pela sua forma de ser ou pelas características do seu trabalho.

É por isso que quase me esqueci que estava num directo, e me foi impossível disfarçar o riso, quando a Margarida revela, na partilha da intimidade infantil, que tinha uma boneca que ficou designada de Lili, a p#ta, isto numa desavergonhada distorção dos adultos que acharam que Liliputiana era simplista demais. Ou quando a Rita revela o seu interesse pela escrita de crime e mistério, tema a que o Bruno ficou atento, como militar que é. Ou quando a emoção do Antonio com filmes revisitados nos faz pensar. Ou quando a Sofia nos fala do seu livro já editado e do seu blogue que lhe purga os dias.

São estas intimidades que os tornam coesos. Foi um prazer falar com eles, na sua diversidade e na sua unicidade.

Somos Repórter Sombra.

A quem possa querer assistir:

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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