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ContosCultura

Ignorantes

A noite de Verão entrava silenciosa pela janela, abafava a respiração, fazia suar. A luz branca da marquise iluminava tudo: o tempo exacto em cada ruga, os segredos mais profundos de cada um, o futuro que nos chegava a correr. E nós ignorantes, como tem de ser. Mas nunca inocentes.

Vindas da televisão, as vozes altas dos comentadores dos Jogos Sem Fronteiras fugiam pela rua, a cidade em sintonia. Eu com nove anos, de braços pousados nas calhas e de queixo pousado nos braços, muda e de olhos entre as estrelas e a rua desabitada. Espiava o escuro com medo de um rol de possibilidades de terror que tinha imaginado. Depois distraía-me com mistérios: alguém se mexeu dentro daquele carro?; os passos que ouvi não têm sombra?; quem é aquela estrela que pisca tanto? Naquele tempo, o incrível estava garantido e selado, nem me preocupava, só sonhava como se desenhasse certezas. Atirava-me ao futuro com confiança cega.

Talvez a infância comece a fugir-nos quando deixamos de confiar cegamente – no futuro, no incrível, nas pessoas. Talvez sejamos um bocadinho mais crescidos quando apanhamos os adultos a fugir de medo do escuro e entendemos que nem a curiosidade os salva.

Sentada no carro vejo os segredos que a coscuvilheira luz da marquise sempre se esforçou por revelar. Não gosto deles. Vivi-os. Nesse dia e nessa marquise, eram futuro invisível. Hoje são cicatrizes e inalterabilidade. Penso no tempo, em como estou aqui e sou capaz de ouvir as vozes daquele programa de há anos, em como é Inverno mas consigo sentir a que sabiam as noites de Julho naquela casa. Inclino-me para observar melhor.

Da janela, eu vejo-me a mexer no carro e sorrio de triunfo. A-ha! Aceno. E eu aceno-me de volta.

Sou e já não sou aquela miúda que está a olhar para mim. Olha para o seu futuro, olha para o meu presente. Mas não sabe quem sou; a luz amarela do candeeiro de rua é mais gentil e esconde-me. Penso que não me reconheceria, faço parte dos crescidos que esqueceram a curiosidade e têm medo dos monstros que inventam no escuro.

É altura de ir. O tempo continua com as suas próprias leis. Os fantasmas de memórias seguem a sua vida naquela casa, condenados a repetir-se, passando por entre nós e as nossas conclusões. E eu continuo a ser tanto do meu passado como do meu presente, a caminhar com cuidado para outro futuro impredizível, ignorante – mas nunca inocente. Quiçá os olhos de um outro me estudem na penumbra também. Ligo o carro e aceno de novo. Só que já lá não estou. E a casa está na escuridão.

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Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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