Portrait of a Lady on Fire: Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) – Crítica

In solitude, I felt the liberty you spoke of. But I also felt your absence.

– Héloïse

Este filme conta a história de Marianne (Noémie Merlant) , uma pintora que é contratada para fazer um retrato de uma jovem (Adèle Haenel) que está prestes a casar, o problema é que esta não aceita pousar para ninguém e então Marianne deve fazê-lo, secretamente, observando cada expressão e movimento da jovem para conseguir assim o retrato perfeito.

Um enorme filme. Como filme francês que é, o ser lento e demorado é quase esperado, mas aqui funciona a favor da película. O grande trunfo desta obra é sem dúvida a cinematografia, para uma obra que lida com uma pintora nada mais apropriado que cada “frame” parecer um autêntico quadro, cheio de cor e luz. O facto de acompanharmos essencialmente duas personagens numa ilha completamente separada do resto do mundo transmite uma sensação de isolamento, parece que estamos apenas com aquelas pessoas e com mais ninguém e isso contribui para uma atmosfera muito mais única. As interpretações de Noémie Merlant e Adèle Haenel são poderosas e parecem ter sido feitas para cada papel respetivamente. No final de tudo, são pequenos pormenores (que irei discutir mais à frente) que fazem do filme um brilhante retrato (olha o trocadilho) de um amor proibido, de um silêncio ensurdecedor e de uma beleza cheia de cor. A banda sonora também brilha e o facto de ser usada de forma residual ainda funciona melhor, dando lugar a uma cena final de grande impacto.

* CUIDADO COM SPOILERS *

Como disse em cima, para além de todas as qualidades mais gerais da cinematografia, interpretação e banda sonora, existem certos truques que a realizadora e escritora Céline Sciamma utiliza como, por exemplo, no início do filme e nas suas primeiras interações os olhares de Marianne e Héloïse nunca se encontram coordenados, sempre que uma olha para a outra o olhar da outra afasta-se, mostrando que as duas não estão em sintonia e não estão na mesma “onda” na sua vida e por isso nunca encaixam, isto muda mais tarde no filme. Outro grande pormenor surge numa cena aparentemente simples, mas em que o trabalho da câmara é nada menos que magistral, a câmara faz um close-up em Marianne e mostra Héloïse afastada enquanto está a ser pintada enquanto Marianne aponta todos os tiques de Héloïse (mostrando Marianne em controlo da situação), a meio da cena, no entanto, Héloïse pede a Marianne que vá para o sítio onde ela está e começa a dizer-lhe todos os tiques que ela tem e quando Marianne volta para o seu sítio, o close up já está em Héloïse e é Marianne quem está filmada de longe (mostrando Héloïse em controlo da situação).

Toda a cena final é também dos melhores finais que vi, recentemente, em cinema. Já anos depois da sua “separação” Héloïse vai a um concerto em que Marianne também se encontra, no entanto o filme não nos deixa com a certeza se Héloïse vê Marianne ou não, ainda assim existe uma peça musical que é tocada nesse concerto que deixa Héloïse desnorteada, pois é a música que Marianne lhe tocou ao longo do filme e que coloca um “laço” em toda a história de amor das duas. Uma história super poderosa com tudo o que o bom cinema deve ter.

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