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Contos

O Jornal

A primeira página do jornal era-lhe desinteressante. Letras garrafais de um negro triste por cima de fotos rasgadas de emoção. Um aro de papel humedecido denunciava onde a chávena de café tinha sido pousada. Faltava o marcador de cor vermelha. Para o pegar inclinou-se sobre as próprias costas para chegar ao bolso mais fundo do casaco pousado na sua cadeira. Enquanto tateava fixou os olhos nos títulos da principais notícias, numa estranha forma de se apoiar na realidade que iria encontrar assim que a enfrentasse. Os números da pandemia, os debates no parlamento, o homem atropelado no centro da cidade, a ultima grande transferência no futebol português.

Por fim, pegou na caneta e abriu o jornal diretamente nas páginas centrais. Começou então a percorrer anúncio atrás de anúncio, analisando todas as ofertas de emprego. A qualquer uma que lhe chamasse a atenção, dedicava-lhe uma vigorosa e irregular circunferência. Quase nada lhe interessava, meia dezena, porventura, que não sendo promissora, incentivava algum ânimo e espírito de luta.

Primeiro telefonema para auxiliar administrativo e uma estranha resposta: “Desculpe, deve existir algum engano. Nós não estamos a contratar ninguém.” Então mas o anúncio no jornal… Riscado.

Próximo. Uma vaga para caixa num restaurante do centro da cidade. “Desculpe, como soube desta vaga? O nosso anúncio apenas será publicado amanha. Ligue de novo se ainda estiver interessado.”

O seguinte exigia o preenchimento de uma ficha de candidatura online. Dados inseridos mas… surgiu-lhe o seguinte aviso: “Refª desconhecida”. Algo de errado estava a acontecer.

Só na quarta tentativa conseguiu algo concreto. Uma vaga para um simples trabalho de rececionista num escritório de advocacia até prometia um bom salário e uma boa dose de dignidade. Algo que lhe começava a faltar. “(…) ao chegar pergunte pelo Dr César. Recordando, entrevista pelas 15 horas, hoje quarta feira dia 30 de setembro (…)”. Não ouviu o resto. Apenas estranhou e não acreditou estar tão errado ao ponto de falhar a sua própria, rotineira, aborrecida, indesejada posição no calendário.

Pegou no seu casaco, na sua pasta e no seu jornal, arrumou o marcador e seguiu para o centro da cidade. Ainda faltavam algumas horas mas antecipando a viagem iria-lhe permitir preparar-se e descontrair um pouco com um almoço ligeiro. Pegou no jornal e leu com os seus olhos céticos. Jornal Central, 30 de setembro de 2020.

Mas hoje era dia 29, uma terça feira. Ele sabia-o. Seria uma gralha, certamente.

Já no centro da cidade, caminhava lentamente com os olhos perdidos entre o caminho e o jornal. Leu a primeira página e percebeu que os números da pandemia não correspondiam com os do dia anterior, ou pelo menos com os do seu dia anterior. Quase colidiu com um jovem que saiu de um edifício soltando impropérios vários e bem audíveis por ter sido despedido. Leu a reportagem que se dedicava a analisar o debate sobre o desemprego no parlamento, algo que lhe tinha suscitado interesse por afetá-lo diretamente, e que por isso sabia que ia acontecer nesse mesmo dia.

Almoçou num restaurante do centro, e enquanto esperava para pagar, deu atenção à notícia sobre o homem atropelado. Pela foto percebeu que era ali mesmo em frente, olhou lá para fora curioso sem se aperceber que já falavam com ele. “Desculpe a demora, senhor, estamos com falta de pessoal na caixa. Tem aqui sua conta.”

Saiu, olhou para a foto do jornal e viu que era mesmo a estrada na sua frente. Leu a foto, viu um carro acidentado, um corpo vazio de alma estendido no alcatrão, viu uma pasta partida no chão, viu um marcador sem tampa junto a uma pequena poça de sangue.

Percebeu que tinha o jornal do dia seguinte. Sentiu um arrepio pela espinha e uma dor gelada e dilacerante como se tivesse sofrido múltiplos golpes perfurantes por uma faca de gelo. Tinha na sua mão o jornal do dia seguinte, uma porta de papel para um futuro próximo. Quis ler a data de novo com a esperança de que nas anteriores vezes que o fizera, estivesse errado. Mas não estava.

O chiar de pneus a morderem a estrada e uma forte pancada de metal contra carne, foram as últimas coisas que ele ouviu.

André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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