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Um dia disseram-lhe que havia uma chave para ser feliz

Um dia disseram-lhe que havia uma chave para ser feliz.

Ela roubou todas as que encontrou – de ouro, prata, latão, chumbo –, e tentou todas as fechaduras com que se cruzou no seu caminho. Tentava as mais simples, tentava as mais complicadas, tentava aquelas em que era preciso dez chaves diferentes para abrir uma porta.

Ficou de fora.

Ficou sempre de fora, de ouvido encostado, a imaginar como, do outro lado dessa porta mágica, havia segredos em que nunca tocaria. Era um imaginar de dor e de medo. Era um imaginar que fazia perder a ilusão e o futuro.

Um dia disseram-lhe que tinha de construir a sua própria chave.

Mas ela não voltou a acreditar no que os outros diziam. Quando se cruzou com um pedaço de madeira velha, decidiu fazer a sua própria porta. A chave que a abriria era de pele e ossos, de memórias. Entrou e ficou algum tempo. Saiu quase sem perceber. Voltou a entrar sem querer e decidiu que deveria deixar-se estar. Às vezes saía e a chave partia-se e era impossível chegar ao outro lado; outras vezes, a porta estava escancarada à sua espera. Havia dias em que se apercebia que afinal estava lá a viver, e se perguntava se teria estado desde sempre, se era assim que funcionava a felicidade – por momentos pequeninos, e não num continuum. A verdade era que, na maioria das ocasiões, perdia-se no caminho para lá, mesmo a porta sendo sua, mesmo os passos sendo seus.

Ultimamente, encontrava a porta trancada.

Tentava abrir e não conseguia. Ou quando conseguia entrar, já não cabia. Aquela chave de memórias já não servia, aquela felicidade já lhe era curta. O tempo tinha passado e ela tinha crescido. Haveria outras portas em que caberia melhor e outras chaves que as abrissem, chaves de palavras e de futuros e de pedaços sangrantes de coração, talvez. Chaves de esperança e de sorriso e de lucidez, possivelmente.

E lá voltou ela, à procura de chaves e de portas, de formas de as encontrar e as construir, de se fazer dona delas.

Até que entrou por aquela janela.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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