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Tecnologia

Processo, logo existo

Na minha antiga profissão a amplitude etária dos meus colegas era alargada. Exerci funções nesse local durante 5 anos e durante esse tempo assisti à reforma de vários trabalhadores. Um deles, com o aval da empresa, preferiu continuar a trabalhar após atingir o Nirvana laboral, sem necessidade, em vez de aproveitar o resto do tempo útil na Terra para desfrutar e ter lazer, utopia/objectivo de muitos trabalhadores. O cómico da situação é que este colega, meses antes de atingir a idade de reforma, suspirava desesperadamente: ”nunca mais”, ”está quase”, ”não vejo a hora de me ver livre disto” (…) e no fim de contas a força do hábito acabou por vencer a suposta liberdade horária que iria advir. Quase como uma auto-restrição, apesar da suposta saturação que sentia e das críticas constantes à empresa. A maior parte de nós não possui a bênção de trabalhar no que realmente gosta e acaba por se conformar com o que tem. Estamos todos ao serviço das nossas obrigações e compromissos mensais, felizmente ou infelizmente.

Já tenho encontrado outros ex-colegas, reformados, cheios de queixumes e lamúrias: ”estou farto de estar em casa, não há nada para fazer, estou ali de roda da televisão e chega a ser desesperante”. Será mais fácil cumprir ordens e dizerem-nos o que fazer? Onde pára a nossa vontade própria, determinação e atitude? O que acontece quando lidamos connosco próprios e com os nossos pensamentos? Tentamos mitigá-los ou até afogá-los?

Sempre defendi que tempo livre nunca é demais. Mas será assim? Quão incomodativo é sentir tédio nos dias que correm? Não é o tédio um dos factores geradores da criatividade? Hoje em dia o luxo do tédio tende a desaparecer: o aspecto mais fácil da vida de hoje é a distracção. Distrairmo-nos durante horas é o mais recorrente: nada como estar letárgico para não pensar em nada. As distracções vêm em modo electrónico: TV’s, telemóvel, tablet, streaming, reels infinitos, conteúdo, conteúdo e conteúdo. O pior é o que acontece nos hiatos dessas distracções. Sentir a nossa própria presença pode ser aterrador e causar uma ansiedade difícil de suportar. Um dos catalisadores/estimulantes da imaginação e do pensamento é precisamente o tédio, e a Sociedade tende a querer afastá-lo. Procrastina-se o encontro de cada um com o seu âmago, ou por preguiça de pensar ou pelo medo do que pode realmente encontrar. E mesmo quanto se tenta olhar para dentro, o carácter viciante das distracções entram em acção pois dificultam a capacidade de concentração. Facilmente se regressa para o mundo das notificações em busca de dopamina instantânea.

Existem outros factores que demovem o pensamento: a dificuldade em ser realmente original. ”Nem sei o que pensar, pois o meu pensamento já foi pensado.” Com tantas pessoas no mundo é natural que todas as ideias que nos surgem já foram equacionadas por outro ser humano. Mesmo se tivermos uma ideia geradora de prosperidade, será exequível? Muitas vezes não se possuem os meios para a executar e isso também pode trazer frustração. Do querer ao fazer vai um enorme esticão. Ainda assim mais vale deixar a porta da imaginação e do pensamento abertas, nem que seja puramente por auto-satisfação, fortalecimento do ego e da personalidade ou até para inspirarmos e ajudar quem está ao nosso redor.

Quando um computador ou outro equipamento electrónico está lento, é comum ouvir a frase ”espera um bocadinho, está a pensar”. Na realidade, o computador não pensa, processa. São só 0’s e 1’s. O pensar é exclusivo do ser humano. Mesmo a inteligência artificial funciona por correlações e reconhecimento de padrões, consoante a quantidade massiva de dados inseridos. No entanto, questiono se nos estaremos também a tornar autómatos. Procuramos soluções instantâneas para os nossos problemas, não contemplamos e usamos o touchpad para ordenar, comprar e comunicar. Quando a vida nos exige uma mudança mais brusca, a maior parte não consegue fazer uma transição suave, pois procura-se, mais uma vez, o tal imediatismo e adaptação instantânea. Não se procuram mudanças muito demoradas. Somos reféns do hábito- veja-se o caso dos meus ex-colegas. Quando chegou a oportunidade de usufruir do livre-arbítrio ou de possíveis novos horizontes, o pânico instalou-se. (se bem é errado esperar até a reforma para usufruir da Vida).

Os hábitos e rituais são extremamente importantes. Fixam o nosso Ser e dão corpo à nossa identidade. Reduzem a entropia do nosso próprio Universo. Mas um pouco de aventura ocasional faz a diferença na nossa vida e desperta-nos para a imaginação e pensamento. Deixemos de ser apenas Homo Laboralis.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

Rafael Serrano

O meu nome é Rafael e nasci em Beja, cidade onde vivi durante 18 anos, posteriormente tendo indo para Évora para tirar o curso de engenharia, finalizado em 2014. Considero-me uma pessoa interessada no mundo ao meu redor e que tenho gosto de ensinar e também em aprender. Acredito no binómio que enquanto estamos a ensinar também aprendemos bastante, e eu gosto da interacção real e ao vivo com pessoas. Sei que a vida não deve ser estática mas sim dinâmica, e gosto de sentir que estou a evoluir a medida que o tempo passa, sendo que todas as pessoas que se cruzam comigo ajudam-me nesse processo. Só espero que elas sintam que eu de alguma maneira também as consegui ajudar. Hoje em dia dou aulas de matemática em centros de explicações. A arte também é um tema que me interessa, pois sem ela a vida torna-se mais vazia. Toco guitarra ocasionalmente. A arte de bem falar , de argumentar e de escrever é um assunto que me interessa. Acredito que quem usa bem da palavra pode atingir grandes feitos. Tal qual como fazer o bem. E gosto do imperativo categórico do Kant também.

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