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Panela Portuguesa

“Nada disso interessa para o conceito de comida afectiva. Como é que tem este poder sobre a nossa memória e pode contribuir para a nossa felicidade? No fundo, reporta-se àqueles pratos, simples, preparados com alegria e tranquilidade no conforto das nossas casas e que nos trazem lembranças gustativas. De imediato, após a primeira colherada, surgem os sentimentos associados ao colo, à segurança e afecto. Por isso, nos fazem felizes.”

– Carmen Martins Ezequiel, in a “Cozinha Secreta da Imaginação”, artigo em Repórter Sombra

Esta foi a pergunta reflexão para um texto que já vos apresentei aqui. Muito embora, se pareça a uma outra, que desenvolvo agora.

Será um desafio este. Uma vez que usarei da imaginação, com ingredientes bibliográficos, para criar uma receita de afecto, cortando os laços familiares que, muitas vezes nos impedem de ter uma boa relação com a alimentação. E, uma excelente refeição.

“A alimentação é mais do que uma necessidade biológica, já que o que comemos, com quem, onde e porquê a colocam no centro de interesse social, cultural, económico, ambiental, gastronómico, de lazer e mediático. Os nossos hábitos alimentares norteiam identidades sociais e culturais, marcando a pertença a uma comunidade concreta e, como tal, expressando ao mesmo tempo demarcação várias de outros grupos.”

Truninger, 2018, pág. 7

Alimentarmo-nos é um acto de cultura, uma identidade própria, típica do povo português, um saudosismo triste em função das memórias, do que foi (nunca existiu, mas é sentido como se tivesse sido um tempo bom). Não se podendo dizer que são apáticos, os portugueses “aparentam uma estranha, inexplicável, morosidade que transparece em todos os seus movimentos: são melancólicos e sorriem de forma ausente: são afáveis, como todos os que consigo carregam um vago e inexplicável desgosto.” (retrato que Alfred Doblin, médico e poeta alemão, fez do povo português, citado em Mónica, 2020a, pp266-267)

As práticas alimentares revelam em que cultura o indivíduo está inserido. (…) É aqui que chegamos aos conceitos de memória gustativa e alimento-memória. São ambos conceitos proustianos, isto é defendem que a comida ao ser degustada conduza a experiências sensoriais que transcendem o aqui e o agora.*

Sendo a comida um meio de comunicação, a forma como socializamos, sempre à volta duma mesa, assim o discrimina. “Assim sendo, a memória gustativa e os alimento-memória são memórias de comunicação que os indivíduos constroem todos os dias, (…) associadas à memória individual”, dependendo também, “e, muito, da memória colectiva, de um conjunto de representações e práticas que herdamos e que carregamos para onde quer que vamos.” * (Guerra & Marques, 2018, pág. 17 e 18)

Como é que muitas vezes fazer receitas familiares ou caseiras nos permite ligar aos nossos antepassados?

Respondendo a esta questão: “através da alimentação, os grupos humanos comunicam a partilha de uma identidade interpretativa da existência” (Silva et al, 2002, pág. 1). E, “nessa mesma dialéctica, o homem produz realidade e assim se produz a si mesmo.” (Berger & Luckmann)

Convém realçar que Portugal e os portugueses “não são excepcionais: somos diferentes porque diferentes foram os factores que assim nos tornaram.” (Mónica, 2020b, pp. 33-45)

Cabe agora, desvirtuar o conceito de comida conforto e alimento-memória, pois “a comida nunca esteve tão presente nas nossas sociedades como hoje: são constantes estudos sobre qual a melhor alimentação para curar toda e qualquer doença; as várias dietas e livros e blogues que as acompanham” (Guerra & Marques, 2018, pág. 16).

Eu, acrescentaria que, a comida sempre esteve presente nas nossas sociedades. O conceito e a dimensão que a abrangem é que são diferentes.

Se antes, “a gordura era formosura”, ou ter de “comer tudo o que estava no prato” uma realidade, a escassez de comida, mas com alguma qualidade, facilmente se destituiu da dieta mediterrânica que compõe a alimentação dos portugueses, para uma outra de fácil acesso, sem esforço ou necessidade, e que se acumula “nos vazios que nos vão enchendo[deixo de parte a “fast food” ou os aplicativos que nos permitem acesso (demasiado) rápido a toda e qualquer variedade de pratos culinários].

E, depois, agora, há a outra vertente, da experiência gastronómica a troco de sensações. Um processo criativo para criar, com exatidão e circunstância, receitas únicas (algumas, versões das já existentes), verdadeiros êxtases de prazer sensorial. Uma Arte da Culinária que, nas nossas memórias, se distancia do sentimento de segurança e conforto das receitas familiares e, se vincula numa linha ténue entre gastronomia e sexualidade.

Como se saboreando as memórias do passado e, agora presente, nos aproximasse das emoções que ficaram perdidas lá atrás.

Será que alguma vez aprenderemos a comer? A saber o que, de facto, nos beneficia o corpo, a alma e a mente? Será que estamos receptivos para esse aprendizado? Ou, será algo que, só gente no futuro poderá compreender?

E, acreditem quando vos refiro, a individualidade também se aplica aos alimentos que ingerimos.

Uma coisa é certa, somos pessoas de hábitos. Gostamos muito de comer, principalmente, se o fizermos acompanhados. Isso, é de uma grande verdade e satisfação.

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