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Crónicas

O que fazes, avó, dos teus dias?

Ontem foi Natal e eu estou triste.
Abri a prenda que me deste,
Que me fizeste agradecer, dizendo
Que foi cara, que foi muito cara.
Perguntaste-me se gostei da prenda.
Disse-te que sim, para não te ver triste.
Mas não gostei. Não pela prenda,
Tenho tantos brinquedos…
Fiquei triste porque esta prenda,
Tão cara e tão obrigatoriamente agradecida,
Significa tão só que não me conheces.

Não sou mais um bebé, avó,
Nem sequer uma criança.
Já não gosto do que gostei,
Evoluí, descobri mundos.
Talvez soubesses disso, se fosses presente.
Talvez soubesses que livros leio, que jogos tenho,
Que filmes vejo, que séries gosto.
Talvez soubesses o nome do meu melhor amigo.
E do segundo, e do terceiro amigo.
E o nome daqueles que não gosto.
E quais são os meus sonhos, ambições.
Minhas dores, minhas paixões.

O que fazes, avó, dos teus dias?
Daqueles em que não vens,
Porque chove, faz frio ou calor,
Há trânsito, greve, ou acidente?
O que fizeste dos teus dias,
Em que nunca vieste ter comigo,
Para irmos ao parque, ao cinema,
Andar de bicicleta à beira-rio?
Ou fazer puzzles nos dias frios,
Jogar às cartas no jardim,
Fazer piqueniques nos pinhais,
Banhos de mar e de piscina?
O que fizeste desses dias, avó?
Dizes que moras longe, e nessa terra
Há sempre intempérie, porque nunca vens.

Só te lembras que és avó quando,
Iludindo quem te ouve, mostras fotos,
Minhas, sorridente, a brincar,
Às velhotas, às amigas, às vizinhas,
Gabando as notas que tive e não tive.
O que fazes nos outros dias, avó?
Ontem, em 15 minutos vieste a minha casa!
Não é longe avó. Sei bem o que são Km!
Longe é o espaço sideral, e ninguém vive lá.

Tenho outra avó, sabes? E na terra dela,
Os dias têm sempre sorrisos, e pode sempre vir,
E vai comigo aos sítios onde somos felizes.
E, curioso, mora também a 15 minutos daqui.
E está sempre disponível. E sabe os meus segredos.

Por isso, avó, para o próximo Natal,
Não venhas dar-me uma prenda cara,
(que fazes questão de dizer que é cara)
Que nada me diz, que me entristece.
Não venhas uma vez por ano,
Não me perguntes se tenho saudades.
Saudades de quê, avó?!
Como se pode ter saudade do que não se viveu?!
Não me peças que te abrace, como se me amasses,
Porque és minha avó, mas uma avó fria e ausente.
Porque se me amasses, vinhas visitar-me.
Vinhas tomar conta de mim, partilhar risos,
E choros, e disparates, e ilusões.

Assume esse papel de que vanglorias
Às velhotas, às amigas, às vizinhas.
E deixa de ser avó em part-time,
Nos anos bissextos, 29 de fevereiros,
Eclipse Lunar e equinócio.
E traz-me a ti mesmo de presente,
Sempre, todo o ano, não só no Natal.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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