HOMEM-ÁRVORE de Carlos Teixeira Luís

Homem-Árvore é uma obra de Carlos Teixeira Luís publicada pela saudosa Lua de Marfim Editora. Não utilizo a palavra «obra» por acaso. De facto, o livro Homem-Árvore corresponde a um marco importante (atrevo-me a dizer primordial) no percurso de escrita deste autor, cuja obra acompanho desde Histórias do Deserto. Tal como nos livros anteriormente publicados, o projecto poético e o projecto ético confundem-se numa só tessitura.

A proposta estética deste conjunto de poemas que podemos ler ao longo de 79 páginas assenta em três temáticas principais. Nas últimas 23 páginas podemos entrever a génese de um novo projeto que convida à leitura de uma próxima obra.

A primeira temática pode ser designada como uma «sabedoria da fugacidade». Podemos encontrar traços desse viver fugaz em expressões como “sábios os caminhantes/os que não param na sombra” (p.7), “sábio o nevoeiro que tudo cobre/até que o sol o sorva” (p.8) ou mesmo “o momento escolhe-nos” (p.15). Os poemas das páginas 15, 19, 21, 26, 40, 53-58, 59, 61-63 e 68-69 aprofundam esta temática através da transmissão de impressões de efemeridade plenas de cambiantes e significados que procuramos desvendar ao longo da leitura.

Se tudo é fugaz, então, para que serve a poesia? Esta temática insere-se numa discussão recorrente desde a Antiguidade. Platão, em A República, recupera o pensamento de Sócrates sobre a utilidade da poesia para o governo da cidade. Em Íon, é abordada a loucura divina que domina o poeta, sendo por isso que este é manifestamente incapaz de falar sobre o que escreve. A voz poética de Homem-Árvore admite que “poetas são loucos” (p.10). Indica que “ali/vivo sem saber se vale a pena/este mesmo poema” (p.11) e “para/quê a poesia assim” (p.12). Contudo, esta mesma voz poética assume que há uma função subjacente a este projeto poético: “ninguém dá por nada até darem por si/no olho do furacão e serem domesticados/pela própria borrasca” (p.14). A voz poética, contrariamente ao que é postulado por Sócrates em Íon, atreve-se a proceder a uma análise da poesia que produz. As páginas 16, 20, 23, 24, 27, 30 e 46 reforçam a ideia de que a poesia está em contacto com a loucura; porém, a poesia pode, em simultâneo, constituir-se como um aviso a todos aqueles que navegam inconscientes dos perigos da vida sem poesia.

Como dar, pois, resposta a esta dialética entre insanidade poética e projeto ético? Ambos parecem encontrar uma resposta na leitura, que é uma escuta atenta por parte de quem lê. A voz poética indica-nos que “tu não és um pequeno nada/és a generosidade da leitura” (p. 17). A voz poética encontra resgate para o seu desencanto nessa manifestação de generosidade, pois a leitura pode confundir-se com uma forma de amar.

É deste modo que entramos em contacto com a temática que perpassa todo este livro – a da perenidade do amor. Segundo a voz poética, só quem ama é vivo, pois está “em sangue fendido” (p. 18). As páginas 29, 31, 32 e 35 retratam a felicidade de um caminho em que à fugacidade das coisas se antepõe o acto intemporal da leitura – que, assim, traz utilidade à escrita poética. Esse amor parece transcender o afeto entre um casal (embora parta dele), diluindo-se num universo mais vasto que une o autor ao leitor dos seus livros. Quem é este autor? Quem são estes leitores? É desta identidade que se ocupa a última parte de Homem-Árvore.

Nas 23 páginas finais deste livro, surgem personagens que, à semelhança da tragédia grega, pretendem provocar um efeito de catarse no espectador/leitor. Contudo, ao contrário da tragédia grega, essa catarse não se produz por via da repulsa, mas por via da identificação. Os homens e mulheres – poetas ou caseiros – que nos desvendam a sua voz são muitos, mas são um todo constituído por todos nós; não obedecem a uma hierarquia que pretenda restabelecer o lugar de cada coisa após a hubris ter sido desencadeada pelo protagonista, desafiando o destino ou a ordem instituída pelos deuses. Estes intervenientes obedecem apenas à perspetiva de cada um/a e aos sentimentos/pensamentos que o/a dominam. Trata-se, porém, da voz de um povo que parece sugerir a continuidade da obra de Carlos Teixeira Luís. Para onde nos transportará o seu projeto de escrita po-ética?

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico
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Comments 2
  1. Os meus mais profundos agradecimentos. É muita generosidade. Bem haja, poeta Sara Timóteo.

    1. Este texto é apenas uma merecida homenagem ao trabalho desenvolvido pelo Poeta Carlos Teixeira Luís.

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