Crónicas

A cura interior

Cada ser representa um argumento diferente repleto de personagens e com um guião distinto. É uma possibilidade enorme de conseguir finais de todos os tipos, mas apenas o final feliz satisfaz à maioria. Quem quer ter um desgosto ou uma infelicidade? Só alguém muito masoquista ou que não viva na realidade pode gostar do sofrimento como motor de vida.

A vitimização está na ordem do dia e ninguém é culpado de coisa alguma. Não existem vítimas, mas sim decisões que se tomam e que levam a rumos que podem ser opostos aos desejados. Há que saber aceitar e enfrentar os demónios que gostam de ficar colados ao ouvido e a ribombar, quais trovões indesejados, de cada vez que o ” não tive culpa ” quiser aflorar à mente.

As dores do crescimento prolongam-se pela vida e são pesadas de carregar. Os caminhos estão povoados de armadilhas onde os ladrões de almas sabem vender a sua banha da cobra com perfeição. E com que facilidade se passa de um lado para a outro da situação. Num dia veste-se a pele do Capuchinho que é maldoso e no outro é o Lobo que nada tem de mau.

Para quando assumir que se errou e que as falhas são tão benéficas como as conquistas? Ambas são marcas da passagem do tempo, testemunhas de lutas e batalhas que se reacendem sempre que as armas ficam guardadas. Afigura-se um cenário que se matiza consoante os ventos que sopram junto com as poeiras que se acamam onde o terreno oferece guarita e convida a ficar.

Somos imperfeitos e dotados dum sistema de ignorância que se renova a todo o momento. É o eterno recomeço onde o balanço do pêndulo se torna contínuo e obrigatório. Já não são as cavernas, com as alegorias, que enganam, mas as luzes que ferem a vista de tanta exuberância e exposição. Então a dor espreita e murmura, com voz doce, que não foi assim o desejado nem o sonhado. Este é o real, puro e duro.

O choro faz-se em silêncio e em contínuo. Engole-se em seco e tudo continua como se nada se tivesse passado. São mais as mágoas que as alegrias e a força acumula-se e vai crescendo até que se transforma num reservatório de emoções e vivências. Tudo se torna escuro e as nuvens cobrem os trilhos com ramos cheios de picos e setas venenosas.

Um dia o sol volta a brilhar e o desgoverno desapareceu. Uma nova esperança liberta-se e o som dos pássaros torna-se audível. É uma melodia que encanta e embala em ondas de alegria e conforto. Há uma vontade indómita de renovar, de reinventar e de ser novamente o eu que se pretende. Uma nova etapa está pronta a ser vivida.

A montanha pode ser alta, mas o cume será conquistado sem mais delongas. O ar fresco murmura na face como uma criança que ainda pensa que tudo é fácil e possível. Não há rio que não possa ser navegado sem barqueiro nem remos de sonho. Água sem fim e vida que jamais se esquece. Tudo irá chegar a um porto onde a segurança será princesa e nunca rainha.

Pára-se e pensa-se. São os momentos de introspecção que reavaliam as vias a seguir e a evidência de que se está no trilho da floresta do medo. De eternos inseguros segue-se a maturidade e então, nessa fase, o sentido de tudo o que não o tinha, saberá onde chegou e aporta sem mais delongas. É o momento do conhecimento e aceitação.

Quando puderes contar a tua história sem chorares, sabes que já estás curado e poderás orientar quem te buscar para a luz. As viagens interiores são longas e as memórias eternas e aprazíveis. Aí finalmente encontras o que buscas e sabes que és tu quem comanda o teu destino.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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