
Filhos do Mesmo Deus é um filme do realizador Yurek Bogayevicz que nos relata a história de um rapaz Judeu de 11 anos que é separado da sua família, durante a Segunda Guerra Mundial. Escondido dentro de um saco de batatas, este é levado para uma pequena Vila na Polaca, onde é adoptado por um Agricultor Católico.
Agora imaginemos que o rapaz é o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras. Tal como o rapaz do filme de Yurek Bogayevicz, Tsipras é obrigado a ter de esconder a sua verdadeira identidade e de ter de “massacrar” o seu Povo para agradar aos Credores. E tudo isto, porque, segundo aquilo que Pacheco Pereira apelidou de “Pensamento Dominante”, os Gregos foram irresponsáveis no passado e, como tal, agora têm de pagar o elevado preço da sua irresponsabilidade.
Dá que pensar não dá?
O mais engraçado é que os Gregos são tão Europeus como os seus Credores… Europeus!
A Grécia teve (também) um papel importante na construção Europeia. Os Gregos fizeram sacrifícios em prol do bem comum Europeu. Em suma, se hoje a União Europeia ocupa o espaço internacional e geográfico que ocupa é muito porque a Grécia contribuiu para tal. E o mesmo se pode dizer dos outros Países que o tal de “Pensamento Dominante” intitula de irresponsáveis como Portugal, Espanha, República da Irlanda, Itália e Chipre.
No fundo e no cabo, os Países membros do euro grupo e da União Europeia são, sem sombra de dúvida alguma, “Filhos do Mesmo Deus”. A Europa não seria o que é sem a Alemanha, assim com esta também não seria o que é hoje em dia sem a Grécia.
Todos, sem excepção, contribuíram para o projecto europeu, daí que seria de todo natural que todos se propusessem a ajudar mutuamente para se fazer face às crises económico/financeiras muito próprias de uma economia altamente globalizada como a que vivemos hoje em dia.
Seria o expectável, mas infelizmente não o é. E não o é, porque o “Pensamento Dominante” determina que no Sul da Europa são todos preguiçosos e irresponsáveis e que no Norte da Europa ninguém quer “trabalhar para sustentar burros à argola”. É isto que tem impedido que Gregos e Credores se entendam de vez.
É verdade que o Fundo Monetário Internacional (FMI), também Credor da Grécia, é um “ser estranho” a tudo isto, assim como é verdade que o que o FMI quer é reaver os seus empréstimos com juros, porque é este o seu modus operandi (o FMI é um Banco no fundo e no cabo que busca o lucro), mas os outros Credores dos Helénicos são Europeus e deveriam saber que os Gregos (tal como os Portugueses, Irlandeses, Espanhóis e Italianos) foram financiados pela União Europeia para deixarem de cultivar e de fabricar em prol do desenvolvimento de grandes sectores de actividade na Europa, onde o Norte ficaria com a Indústria/Agricultura e o Sul com os Serviços/Turismo.
Ora, como podem agora os Credores Europeus do País de Tispras e Varoufakis exigir que este tenha uma Economia que financie o pagamento dos empréstimos e garanta a sustentabilidade do seu Povo? Não podem! É um paradoxo impossível, daí que o impasse entre Gregos e o Eurogrupo se mantenha e se vá manter, enquanto todas as partes europeias não perceberem que, para o bem e para o mal, são todos “Filhos do Mesmo Deus”.
P.S. Eis um bom exemplo do “Pensamento Dominante”. E cá pelo nosso pequeno burgo há quem ache isto muito bem, porque o problema não é a forma como tudo isto se encontra, mas sim o Syriza.


