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Bem-EstarCrónicas

Sem tretas

Eu tenho uma amiga que (viva o calão) não dá muitas abébias a tretas.

Uma coisa que importa ter nas amizades é admiração, orgulho. Vou encontrando vias e caminhos que me deixam olhar os meus amigos com algum distanciamento e ver o quanto valem como pessoas, para além da relação de amizade que possamos ter. Importa, por vezes, olhá-los de longe para nos certificarmos de que os queremos cá, neste catálogo reduzido e precioso. Se me pedissem para descrever qualidades dos meus amigos, creio que o conseguia fazer sem demora e considero este um bom exercício: olhar os aspectos dos outros que nos suscitam admiração. Todos somos essa combinação de coisas boas e menos boas aos olhos de uns e outros; para que uma relação se mantenha, convém sabermos para onde apontar o foco. Todos os amigos têm defeitos, alguns bem cabeludos, mas quando as qualidades são mais evidentes (para nós), o elo pode ser longo, às vezes eterno.

Talvez pudesse escrever uma série de textos, um pouco mais curtos, para não maçar o leitor, dedicando cada um a um amigo. Não é o caso que não tenha muito para dizer, mas correria o risco de cometer o erro típico das mães a falar dos filhos, que maçam os demais com a suposta singularidade da sua cria. Devemos ser comedidos a gabar os nossos, não é?

Poderia essa série começar com uma amiga velha, das mais velhas, de uma vida. E quando uma amizade se perpetua assim no tempo, a pessoa enche-se de orgulho, ou não? Caramba, quantos cruzamentos, etapas, semáforos, metas, já trilhámos? A vida já acelerou e desacelerou algumas vezes e continuámos no caminho.

Estou convencida que a minha maior cola, para além do carinho e amor que lhe tenho, é a admiração. Eu preciso de admirar os meus amigos. Gosto e cultivo o orgulho que tenho neles. E isso com ela é fácil. Não que sejamos similares em muita coisa, não tem muito que ver com parecenças, tem mais que ver com um lugar comum onde gostamos sempre de ir. Sem datas marcadas nem regularidades previstas.

A última chamada telefónica que fizemos lembrou-me isto. Sem cronologia necessária se resume: ela tinha um trabalho bom, numa entidade de respeito, bem remunerado, com flexibilidade de horários, ao qual poderia confortavelmente chegar de carro, depois de largar as filhas na escola. Tem duas filhas e um companheiro. As actividades características que se importam e arrumam nas horas extra-curriculares. Uma casa. Pais, irmão, família. A banalidade que nos rouba, a todos, tempo. Resolve mudar para outra empresa que lhe oferece, porventura, outra estabilidade e tabela remuneratória, talvez também mais desafio. Agora, decidida, deixou o conforto do carro e usa os transportes públicos para ir trabalhar, gramando com tudo o que isto implica, sabemos. Vai mais cedo, chega mais tarde. Paga as facturas do tempo que lhe é cortado e segue. Como se esta mudança não lhe roubasse já suficiente tempo aos dias, ainda arranja um part-time que lhe engrossa o orçamento mensal e a satisfação profissional. Ela gosta do que faz e é a prova de que o tempo se torna elástico quando queremos. Não nos poupa ao cansaço. Mas quem se dá à vida, sujeita-se de peito aberto aos cansaços que não fazem história.

– Bolas! Já chega, não? Não encaixas mais nada aí nesses dias. Olha que o tempo não estica! – o adágio popular afirma-se na repetição.

– Estica, estica.

Há quem o encolha e há aqueles que o fazem esticar. Ainda é, ela, membro de uma banda, onde canta, dá concertos. E diverte-se, que é a melhor parte. Em certas alturas da catalogação da vida, todas as expectativas se põem em sentido contrário, como que cortando opções, desbastando a planta que se quer de ramos curtos e amputados, para evitar futuros inconvenientes maiores. Mas ela segue sentido oposto, sem tretas, deixando os ramos crescerem sem condicionalismos impostos. Agarra a vida sem pedir licença. Penso nela e acho que não vai deixar muito por fazer.

No fim de tudo isto, ainda arranja tempo para me ligar e saber de mim, quem sabe tomarmos um café… Sem tretas.

Todos podemos estar atentos às inspirações que temos ao nosso lado. Eu, às vezes, penso que tenho a vida facilitada, por alguns bons exemplos cuja cola perdura.

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

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