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ContosCultura

A Escadaria

A cerveja na mão indica-me a hora aproximada do dia. O vidro frio da garrafa diz-me que cheguei há pouco, mas as outras quatro vazias no tampo de uma mesa manca de metal desmentem-no. Então esta é a quinta. E se esta é a quinta então já aqui cheguei há pelo menos uma hora, não muito mais do que isso, certamente. Se fosse há mais do que uma hora já estaria a chegar a casa, ou a caminho cambaleando, como dizem que faço depois de beber mais do que as suficientes. Mas ainda aqui estou e sei que o vidro frio desta garrafa apenas significa que esta quinta cerveja estando fresca, ainda está cheia. Toca então a beber porque o tempo vai passando e ainda tenho que chegar a casa. Isto porque após esvaziar a terceira, que vai já diretamente para o cérebro, sei que o sol se põe e os recantos escondidos da escadaria começam a ganhar vida. Vou acabar esta e seguir para casa com esperança de os encontrar ainda adormecidos.

Que beleza! Que postura! Que elegância!

Uma deusa em trajes humanos chama-me com a voz do seu andar. Final de dia raro este em que a cerveja quase ficava a meio, a sexta, ou ainda é a quinta? Não interessa! Não pensei nisso. Paguei rápido a conta deixando o troco e saí perseguindo o canto da sereia marcado indelevelmente por um aroma a flores do verão, o aroma do sol e dos dias longos. O dias longos são os melhores para navegar neste lago de mar salgado que parece não ter fim e às vezes confunde-se com a própria vida. Dia após dia a esperança parece esmorecer sem ter terra à vista. Não é da família que uma pessoa mais sente falta em alto mar, é da terra firme, de sentir pisar um chão independente que não vive à mercê de criaturas desconhecidas que embalam constantemente o barco. Já nem consigo enjoar nem mesmo no mar mais crispado, porque o meu corpo já não se lembra do que é outra coisa além do embalo do mar, além do que é normal, de apenas sentir a Terra a girar sobre si e em volta do astro rei. Foi já entristecido que uma nesga de terra ao fundo surgiu no horizonte. Terra firme, o destino ao fundo. Eu no seu encalço.

Uma sandália deixada para trás depois dela dobrar a esquina. Passo apressado e outra sandália ao fundo a contornar novo obstáculo. Mais um pouco e novo obstáculo. Sinto-me ligeiro e estou quase a meio da prova. Passo os obstáculos sem dificuldade. Sinto o efeitos do treino minucioso a surtir efeito. A técnica de salto permite-me não quebrar o ritmo. Sinto ser altura de acelerar um pouco o passo. Coloco-me na frente do pelotão e sigo a estratégia que estava bem definida. Uma aceleração curta mas forte, outra depois de mais cem metros corridos, e uma terceira. O pelotão ficou partido, somos agora quatro a disputar o ouro olímpico. Nova barreira, salto, impulso, evito a parte mais funda da água que faz perder velocidade. O holandês está a ficar para trás, está a fraquejar. Dois quenianos e eu seguimos muito próximos quando passamos na meta e ouvimos o sino a indicar que estamos a entrar na última volta. O público no estádio levanta-se e manifesta-se de forma audível! Faltam trezentos, duzentos metros, a meio da última curva um queniano tenta surpreender mas eu respondo e ataco com um vigoroso sprint final e corto a meta em primeiro lugar! A vitória é minha, visto-me de ouro olímpico, banho-me em glória! Para sempre vou ser recordado. O estádio está ao rubro, aos gritos mas quando chego perto ela assusta-se.

Corri decidido a não a deixar escapar sem pensar que isso não depende de mim. Diante de um monumento à beleza da mulher não soube o que fazer. As palavras faltaram, a respiração descontrolou-se, o suor frio percorreu-me a pele. Tudo dentro de mim. Ela era o monumento mas a estátua era eu. E ela olhou-me com os seus doces olhos à espera de saber porque eu a chamei. Claro que ela foi embora, seguiu o seu caminho a subir a escadaria que também era o meu caminho para casa. Esperei um pouco a olhá-la, as suas formas perfeitas, a forma dançante como movimenta as generosa ancas a cada passo. Esperei para a admirar mas também para lhe dar liberdade. Sim, sou um tipo decente e mesmo com os copos sei como respeitar uma pessoa. Ela não ia querer que eu a seguisse ali poucos metros atrás de si. Esperei a assobiar, cantarolando melodias que só ouvia na minha cabeça, melodias de sons puros vindos das teclas de um piano de cauda.

Por fim, ela chegou ao topo da escadaria e seguiu o seu caminho já sem se lembrar de mim, e eu cantarolando continuei a compor a minha música. Ritmo e melodia em doses perfeitas. Que som! Que Música! Toco cada tecla do piano com vigor e delicadeza em doses iguais. Soubesse eu escrever música e estariam estas linhas cheias de “Dós”, “Rés” e “Mis”. Assim estão apenas palavras que digo eu serem as teclas de um piano. E fui descoberto. Abeirou-se de mim sem aviso uma figura sinistra. Estendeu um cartão na mão e disse ser um caçador de talentos. Nada mais disse além de que aquela música que vinha compondo era a mais bela que alguma vez ouvira, e como ele tanto ouviu! Disse que descobriu uns tais de Rui Veloso e Pedro Abrunhosa, falou em Variações e numa tal de Bacalhau, mas eu acho que é mentira. Só falta ter descoberto Mozart. Riu-se e disse que não. No fim da música ele já estava exaltado. As teclas terminaram comigo no cimo da escadaria mas ele continuou a pedir-me a carteira. Deve estar louco. Gritei e fugiu teclas a baixo para o sopé da escadaria. Era apenas um demónio que vivia nos recantos escuros que havia falado.

Sigo para casa.

Preciso de curar a bebedeira. Acho que já estou a imaginar coisas.

André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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