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ContosCultura

Pesadelos a preços simpáticos

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Descolou os pesadelos das pálpebras enquanto lavava a cara. Colocou-os a secar no estendal da roupa e procurou outros. Sacudiu almofadas e bateu no colchão, guardando todos os que encontrava. Andou à cata deles por todo o corpo, despegando-os da pele. Afastou-os de ao pé das suas esperanças e da sua coragem. Amaciou os vincos da roupa de cama e do coração, pegando neles com as unhas. Quando teve a certeza de que não havia mais nenhum, arrumou-os na mochila, bem acomodados para não se partirem nem se misturarem. Hoje seria um bom dia para vendê-los.

Na feira, colocou-os lado a lado na toalha que estendeu no chão. Uma toalha de pic-nic, branca e vermelha, com algumas manchas de felicidades antigas. Escreveu num papel “Pesadelos a preços simpáticos” e sentou-se numa cadeira de praia. Observava os curiosos que liam o papel que segurava, os olhos furtivos que mostravam mais interesse do que queriam admitir, com as mãos nos bolsos e uma expressão blasé.

“A quanto está este?” a rapariga apontou para um pesadelo grande, muito escuro, cheio de desolação. Era um pesadelo de fim, de morte, de fotografias com caras queimadas, porque não existia mais quem nos quisesse bem.

“Fica a um sonho de paz” respondeu ele. “Se não tiveres, custa cinco euros.”

A rapariga considerou. Tirou uma nota da carteira e pediu-lhe um saco de papel para levar o pesadelo. Esticou uma mão manchada de tinta. Os escritores costumavam ser os seus clientes preferidos: eram dos poucos que recorriam às negritudes para si próprios. Por vezes, para usarem no enredo de algum livro; outras vezes, para se inspirarem nas tristezas.

Os outros clientes usavam quase sempre noutras pessoas. Mulheres e maridos que queriam pesadelos de traição e abandono para colocar nas bebidas dos cônjuges. Pais que compravam pesadelos minúsculos, o suficiente apenas para levarem os filhos a seguir os seus conselhos. Trabalhadores insatisfeitos que perguntavam por pesadelos em que se trocavam hierarquias e papéis. Alguns patrões medrosos que procuravam pesadelos de desgraça económica para criar receios a quem queria sair da empresa.

“Não tenho de fobias, não. Mas se fizer um pack com um pesadelo de amor e outro de fim do mundo, a sensação e o efeito são muito aproximados.”

Vendeu quase todos os que tinha, mas não conseguiu trocar nenhum por sonhos pacíficos. Eram demasiado raros, demasiado valiosos, as pessoas que os tinham preferiam pagar em dinheiro do que abdicar deles. Poderiam sempre fabricar mais, é certo, mas nisto dos sonhos não há datas nem certezas; mais valia guardarem os seus. Mesmo assim, ele já tinha na mochila um sonho de realização, alguns de pequenas alegrias, dois eróticos, uns tantos de amor e três de descoberta. E mais algum dinheiro. Uma boa colheita, sem dúvida.

Antes de ir embora, amarrou as pontas da toalha e deitou os que sobravam num contentor. Não queria deitá-los no chão. Nesse sentido, os pesadelos eram muito parecidos às memórias: ficavam entalados entre as pedras da calçada e entre as fendas das esquinas das ruas até passar alguém e eles agarrarem-se à pele, aos tornozelos, aos cabelos. E ele bem sabia o que custava depois limpar-se do que já passou. Mesmo que só tivesse sucedido enquanto dormia.

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Rosa Machado
Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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