PolíticaPortugal

Passos versus Costa

Aproxima-se a data das Eleições Legislativas e, com ela, um novo ciclo eleitoral. O momento que, para a generalidade dos portugueses, é o da expressão democrática, em que, se tendo inibido de uma participação social e política, os eleitores se sentem a fazer parte do Sistema, da Escolha.

E é da escolha que se trata, em princípio. Porém, para o ser, genuinamente, há que conseguir identificar diferenças, entre as propostas que se apresentarem a plebiscito. Uma boa escolha depende de conseguir ver as diferenças e também as semelhanças e proximidades entre organizações partidárias. As diferenças contribuem para a escolha e para a decisão, as semelhanças para que os que acreditam neste sistema como está, sintam a segurança que alguma estabilidade lhes pode dar.

Atentemos nas diferenças e seleccionemos os adversários políticos mais destacados. São eles a Coligação PSD-CDS, onde o PSD terá a palavra mais determinante, e o PS, ainda a credível alternativa. Não se confunda “credível” com o professar de alguma fé, pois tentarei fazer este exercício nas raias mais genuínas da imparcialidade. Credível, neste contexto, significa com genuínas possibilidades de alternar o Poder e vir a constituir Governo. Pois, quanto ao resto, é a leitura que cada um faz do que tem observado da política nacional, do que lê, do que pensa poder vir a ser um Governo de um determinado Partido, ou coligação de Partidos. E da sua fé numa organização, no limbo de um optimista desatento ao perigo, de ser com frequência apenas isso, uma questão de acreditar.

Ora, o PS apresentou um programa eleitoral, um conjunto de linhas de orientação e não mais do que isso, o que é normal, para uma futura governação do seu Partido. Antes de continuar, uma observação ao ler o programa. O PS diz a dada altura que irá criar um fundo de Capitalização, numa atitude ou de confusão entre Partido e Governo sustentado por um Partido, ou de assumpção de que Partido e Governo são a mesma coisa, com o perigo que isso representa em termos democráticos. Será um Governo do PS, se o PS ganhar, que poderá criar esse Fundo. E esperemos que sim, pois os eleitores, com todos os defeitos que tem este sistema eleitoral, onde um deputado eleito não representa quem o elegeu, mas apenas o seu Partido, usando o voto do eleitor que pode nem ser do mesmo, esses eleitores não gostariam por certo de ver um Fundo alimentado por recursos europeus e eventualmente nacionais, como o programa do PS prevê, ser gerido por anónimos não eleitos.

AB_passosversuscosta_3

Confusões à parte, de que estas eleições estão férteis, e trapalhadas também, no que, afinal, se torna aspecto comum entre as duas forças mais elegíveis, PSD e PS, tentemos perceber as diferenças, para a escolha, e as semelhanças, para a segurança que podem ser decisivas a um eleitor. E personalizemos a análise, em Pedro Passos Coelho e em António Costa.

Já todos sabemos boa parte dos seus percursos. Um deles tendo praticamente feito a sua vida adulta dentro do seu Partido, eventualmente sempre tendo perseguido o objectivo a que se propunha de vir a ser líder do mesmo e Primeiro-Ministro. O outro, com uma juventude mais temporã, com outras ligações além-partido, no seio de uma organização que nunca nos foi transparente, desde logo pelo secretismo de quem lhe pertence, de quem lá decide, do que por lá se faz e que objectivos tem, a Maçonaria.

O primeiro, Passos Coelho, apresentou-se às eleições legislativas de 2011 com o optimismo (façamos de conta que é saudável e promissor para nós esse optimismo apresentado e até que é genuíno, ou seja que ele acreditava nele). Por essa altura, a ideia seria não infligir mais sacrifícios aos portugueses, não apenas pelos impostos, que, para um Partido tido de Direita, ou pelo menos Liberal, devem estar sempre mais baixos do que para um de Esquerda, na linha de um Estado menos presente no caso do primeiro e muito mais activo e planificador no caso dos segundos. O normal seria Passos fazer o que fez, defender um alívio dos impostos, mais para as empresas, de que alguém mais conservador politicamente, ou de centro-direita se pretende mostrar, defenderá, e assim o fez. A diferença para o PS agora, é… quase nenhuma. O PS defende o mesmo alívio dos impostos, também para as empresas, e não define se mais, ou se menos para as pessoas. Contudo, defende o estímulo ao consumo privado, como um dos motores económicos que, diz, podem inverter este afundamento da Economia portuguesa. Esta é claramente uma medida de Direita que este PS quer fazer umas das suas bandeiras destas eleições. Diferença, ou semelhança?

O PS defende um novo estímulo à economia, assente em vários pilares, um deles o regresso do intervencionismo estatal, o tal Fundo de Capitalização, e, entre outros, um novo impulso ao investimento estrangeiro (nem vale muito a pena aqui explicar que, quando uma empresa estrangeira, ou o conjunto de todas elas, entram num país, se subtrai logo ao PIB desse país entre 1 e 2% do Rendimento Nacional do mesmo, sendo que não fica clara a vantagem de tal investimento, com a excepção, espera-se sempre, da criação de emprego). No entanto, esse investimento tem um custo para o Estado que nunca é explicado a um eleitor: o dos benefícios que tais grandes empresas exigem e auferem, que sempre os eleitores terão de compensar por, exactamente… impostos. E ainda, o que nunca é explícito também no mesmo problema das Exportações, bandeira também deste PS actual (e de sempre) e do PSD também, ou seja, de Costa e de Passos Coelho: o de que para actual cá, uma empresa desequilibra a balança comercial com o que importa de produtos e serviços não produzidos internamente, sendo por exemplo, impactantes nas exportações, de empresas portuguesas e estrangeiras, calcula-se, em cerca de 70% ou mais. Diferença, ou semelhança?

AB_passosversuscosta_2

Observemos a defesa do PS, ou de António Costa, da Cultura, face ao que pensa Passos Coelho. Provavelmente António Costa irá fazer uma defesa da Cultura e até da Ciência, mais evidente do que Passos Coelho. São bastiões tradicionais do PS e, por oposição, ou quase, os bastiões do PSD e de Passos são as empresas, os “privados”. Uma nebulosa, nos últimos anos, no entanto, não nos deixa, a meu ver, isto assim tão claro. Se a Cultura é assim um princípio básico para o PS de Costa, porquê a continuada defesa de um Acordo Ortográfico (AO90) que nada tem a ver com Cultura, mas com a defesa de empresas editoriais, entre outros interesses, e até é negado, mesmo que não muito enfaticamente, por personalidades acarinhadas por Costa, como Manuel Alegre? E se o PSD de Passos se devia opor a uma destruição da base cultural mais forte de um povo e até defender a continuidade da tradição linguística, porque assimilou o AO90 e até o defende? Diferenças, ou semelhanças? E muitas mais haveria, neste âmbito da cultura.

E a saúde? Talvez aqui Costa se distancie mais do PSD, pois agora defende que tem sido um erro a descontinuação de muitos Centros de Saúde e acusa Passos Coelho de destruir o Serviço Nacional de Saúde. Porém, foi Correia… quem iniciou este processo de encerramento de Centros de Saúde e até da Maternidade Alfredo da Costa, decidida num Governo PS. E, parece, até se confirmar, que a área da Saúde se tem aguentado, mais ou menos, mesmo com os cortes que sofreu. Embora… no que diz o Ministro e no que dizia antes Correia de… fiquemos na mesma. Ou seja, mal. Muito mal servidos e quem recorre ao SNS sente bem a degradação. A pergunta é, aqui como noutras áreas, a que mais aproxima Passos Coelho de Costa: com as imposições da Europa e da Troika, quem acredita, genuinamente, que Costa poderia, ou poderá fazer diferente e evitar cortes e degradação do SNS? E será que Passos Coelho defende uma viragem da Saúde em Portugal para o Privado, mesmo? E como, num país onde o poder de compra caiu tanto? Será que alguém acredita que esta é a opção de um Passos Coelho, quando o sector privado da Saúde se torna dia após dia, cada vez mais inacessível aos portugueses, ou, pelo contrário, não temos todos de recorrer mais ao SNS e muito menos ao sector privado? Onde estão as diferenças e as semelhanças que as há, que representam de decisivo para nós, eleitores?

Contudo, talvez a Educação seja o sector onde as evidentes distâncias entre Passos Coelho e António Costa se tornam mais claras aos nossos olhos. Pelo Governo de Passos Coelho, muitos professores têm ficado sem emprego, um dos dramas nacionais e uma das suas vergonhas maiores. Porém, o processo de descalonamento da classe de professores e o fecho de escolas foi iniciado por quem? E a herança de “investimento” no sector, que deu, é certo muito melhores escolas, mas muitas trapalhadas também com a gestão do processo, com a Parque Escolar, com processos judiciais… onde nos deixam na opção entre Passos e Costa? E não foi Sócrates que mais combateu e se incompatibilizou com os professores? E Costa que defende? Ataca o suposto ataque de Passos à escola “pública”, mas talvez nos deixe no mesmo impasse que nos pode deixar a escolha quanto às opções na Saúde: as imposições da Europa, que o programa do PS defende clara e inequivocamente, darão a Costa outras possibilidades? A defesa do Euro e do seu espaço como está, por Costa, muito evidente no seu programa, afastam-no de Passos Coelho? Ou deixam-no no mesmo espaço político?

Ou será o tema das privatizações o que é fracturante, entre os líderes dos dois Partidos?

Passos defende mais o sector privado do que público, pelas suas bases e origens ideológicas. E, assim, Costa, o seu oposto. Em princípio… pois pelo meio, há, de novo, a Europa e as suas imposições no contexto do resgate. Onde estão as diferenças? Costa é líder de um Partido que também efectuou um programa de privatizações, nem de perto criticado como Passos. Não sabemos se Costa consegue cumprir com a reversão destas privatizações recentes, se se deixar vincular, como diz aos desejos de quem manda na Europa. E nem sabemos se as suas posições são meramente eleitoralista, ou populista, mas desconfiamos. E, mais uma vez, podem existir diferenças, mas não são certas. Desejos de assumir em decisões diferentes, sim, parece credível, mas desejo não é decisão. Certo é que este programa de privatizações tem sido um insucesso, um desastre, como o foram todos os que se concretizaram sob a alçada de um resgate financeiro internacional.

Este artigo podia entitular-se qualquer coisa que lembrasse “capicua”, pois por mais que exercite a procura das diferenças, mais me parece um exercício inútil, parecendo arbitraria a ordem dos… dois políticos.

O estilo. Cada um dos líderes do PSD e do PS têm um estilo que os diferencia.

Observando Passos Coelho, fica-se com a ideia de ser sereno e seguro. Uma segurança, real ou aparente, que lhe advém de quem governou, sob a chancela da Europa, cumprindo com os objectivos, segundo ele mesmo afirma, de uma Troika que os ditou. Grande parte da sua governação, praticamente toda, se cingiu a um programa que não era seu e vê-se nas suas expressões o mesmo contentamento do aluno que passou com distinção no exame, mesmo se a matéria a saber estava em contra-regra com a realidade.

Observando Costa, de dedo em riste, a ideia que pode ficar é a de menos segurança, mas também a de autoritarismo, de alguém que afirma sempre, esteja ou não certo do que diz, mas que exigirá coisas feitas como ele entende. Não é uma imagem apenas, mas a combinação dela com as trapalhadas e gafes em que os temos visto. Pode-se concluir que a imagem não corresponderá em nenhum deles à realidade do que são. Contudo, a imagem irá dividir opiniões, gostos e simpatias ao sabor das preferências de cada eleitor.

Não será pela imagem pública, porém, que se pode com rigor afirmar que Passos Coelho é um político mais sereno, confiante e seguro, ou menos autoritário do que Costa, porque boa parte dessa face que podemos ver é, por um lado, o resultado da que pretende cada um apresentar, porque lhe serve um princípio e um plano, o de Passos, o da obra feita e elogiada pelos seus homólogos europeus, o de Costa, o do político responsavelmente preocupado com a má governação do adversário e o estado do país e também o do homem indignado, ou mesmo revoltado com a actual situação da economia, da sociedade e de tudo o mais. O dedo acusador que se agita, quando fala em público, é o do homem politico que acusa, sabendo o que diz, segundo a imagem que pretende passar.
Inclino-me a dizer que Passos leva a vantagem em imagem, mas veremos.

AB_passosversuscosta_1

Para além da imagem que cada um pretende passar de si como líder e candidato a Primeiro-Ministro, é seguramente muito importante saber ver e discernir. Nem Passos Coelho foi o liberal de que se falava e temia, transformando Portugal numa quase réplica de uns Estados Unidos da América de pequena dimensão à luz dos tempos de Regan, ou de Tatcher no Reino Unido, experiências a um tempo, de sucesso e, logo depois de uma evidente catástrofe social e económica, nem Costa o socialista que terá um plano que possa contrariar o passado recente, traçado ao detalhe pela Europa e pela Troika, num caminho muito próximo do rasgar da toalha que pretendeu o Syriza na Grécia.

Ambos têm um objectivo pessoal muito comum e quase indistinguível. Manter-se no Poder, no caso de Passos Coelho, e chegar a ele, no caso de Costa. O que implica tentar mostrar diferenças não tão evidentes como se poderia supor e aparecer aos nossos olhos como líderes responsáveis em quem se pode confiar e entregar o Executivo. Esse objectivo implica num mostrar “obra feita” e o que “está certo e é que o único caminho viável a Portugal”, do outro o que poderia e deveria ser feito, para atingir um mesmo sucesso, mas sem nunca romper com os ditames da Europa, a que cada um deles não quer, nem pode fugir. A atitude revolucionária ou irreverente de Costa de há uns meses antes da campanha eleitoral já é demasiado perigosa no momento da decisão dos eleitores. E a atitude demasiado colada ao do aluno que cumpre e não questiona de Passos é também demasiado perigosa neste momento em que o espírito crítico dos portugueses pode comprometer a reeleição.

Por estas razões é que os dois se metem a caminho, apresentando propostas e promessas tantas vezes inverosímeis e irrealistas, cometem gafes e se mostram com alguma frequência muito trapalhões, demasiado irresponsáveis, talvez, aos olhos dos que irão votar. No afã de mostrarem que são diferentes e melhores, de se preocuparem bem mais em apresentar as falhas, lacunas e fragilidades do adversário, do que as qualidades e virtudes deles mesmos, acabam por tornar opaca a verdadeira personalidade e capacidade política que nos devia ser evidenciada.

Uma escolha eleitoral deve, no entanto, ter o cuidado, acrescido pelo momento sensível que Portugal atravessa, de ver muito para além das querelas, gafes e excessos dos candidatos. É fundamental saber ler muito nas entrelinhas e ver o grupo a que cada um pode pertencer, que pode determinar muito a sua acção futura. Os eleitores portugueses preparam-se para escolher não apenas um futuro Primeiro-Ministro, mas um líder que possa fazer o país regressar ao crescimento, à recuperação de salários e poder de compra de um nível de vida, apesar de tudo, almejado em cerca de trinta anos, que não se faz por decreto ou medida governamental, ou não se devia fazer, mas por descobrir de novo caminhos que contrariem a tendência normal que uma austeridade violenta nos impôs. Na essência, os trajectos de cada um dos líderes dos maiores Partidos, não arriscará muito mais para além do que tem sido feito. Isso, em si mesmo, pode ser mais preocupante, por impossibilitar um regresso mais rápido, no espaço de uma geração, trinta anos, a uma linha de convergência com a Europa. Ou não. A visão de uma política, ainda que de uma mesma moeda, com duas faces, mas a mesma moeda, nunca será igual para todos. É nessas visões que reside a escolha. Bem mais nessa visão, do que na realidade rigorosa e fria.

Tags

Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: