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Multiverso da Loucura ou quando menos não é mais

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Depois de ter visto o filme Vingadores: Ultimato da Marvel Studios em 2019, só voltei a ver um filme/série da Marvel no final de 2021, arrastado por um sentimento de nostalgia dado pelos filmes originais do Aranha de Sam Raimi.

E surge agora, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura do realizador já mencionado, que tem o tal cunho autoral que anda desaparecido destes filmes. Afastado destas lides, vejo críticas referirem que será importante ter conhecimento dos acontecimentos de Wandavision e Loki.

Raios. Não me apetece ver as séries… Mas o que se passa com este franchise?

Um breve contexto

Desde 2008, com a chegada do Homem de Ferro ao cinema, o produtor Kevin Feige tenta criar no cinema uma experiência semelhante à que um leitor de BD encontra, ao seguir as histórias das personagens da Marvel nas revistas mensais – um universo comum em que todas as personagens vivem e interagem, sendo todas afectadas pelos acontecimentos extraordinários que vão ocorrendo.

Até 2019, com o já citado Ultimato, a Marvel produziu 22 filmes que seguiram uma narrativa linear, em que os filmes dos Vingadores eram os eventos principais, em que todas as personagens se iam reunir contra uma ameaça sempre maior que a anterior. Contudo, ao 22º filme foi quebrada a linearidade temporal e introduzida a viagem no tempo. Como consequência, surgiram realidades paralelas e o filme deixou várias pontas soltas para serem exploradas no futuro – não era mesmo o fim.

Plano Marvel – de 2008 até 2019

Quando a Marvel Studios criou os seus filmes, começou por apresentar três personagens principais: Homem de Ferro, Capitão América e Thor, personagens essas que se iriam tornar nos pilares do Universo Marvel. Digamos que o Homem de Ferro teria um lugar de destaque, sendo mesmo o tutor de outras personagens e coração de todos os filmes produzidos, com inúmeras citações à personagem, mesmo que ela não estivesse no filme.

Ao longo de 10 anos, os argumentistas criaram uma dinâmica em torno do Homem de Ferro e do Capitão América, sendo os seus filmes a solo os alicerces dos eventos cíclicos, ou até mesmo o evento principal, como aconteceu no terceiro Capitão América.

Não é de estranhar que a morte do Homem de Ferro fosse o acto de heroísmo que iria ser o fecho de uma dezena de anos de histórias. Com a sua morte além de se fechar um ciclo, deixou-se uma cadeira vazia.

Plano Marvel – depois de 2019

Tudo girava em redor da tecnologia do Homem de Ferro e dos seus filmes-evento, mas não surgiu uma personagem para ocupar a sua cadeira e isso foi deixado para um artificio narrativo que descuida o planeamento cuidadoso: o Multiverso.

E o Multiverso aparece no Universo Cinematográfico Marvel, muito curiosamente no streaming e não no cinema – na série Loki para ser mais preciso. Parece-me uma decisão muito estranha, que apresenta um conceito importante apenas a um público fidelizado.

Resta saber o que é o Multiverso?

O Multiverso é um conjunto de realidades paralelas fictícias onde existem personagens da Marvel. Naturalmente que a realidade paralela mais interessante é a dos filmes que já foram produzidos fora da alçada da Marvel Studios.

O caminho para a preguiça narrativa está aberto e isso foi muito visível no último Homem-Aranha, onde os dois principais vilões foram criados em 2002 e 2004 nos filmes do Homem-Aranha da Sony e são a melhor coisa de um filme, em que a história é um mero pretexto para ter os três Homens-Aranha ao mesmo tempo no grande ecrã.

O declínio natural do Universo Cinematográfico Marvel

Quando se culmina um evento de 22 filmes, existe naturalmente uma catarse.

E é preciso não esquecer que com 22 filmes a experiência ficava completa comprando bilhetes de cinema. Agora temos de subscrever um serviço de streaming, o que já adiciona um esforço extra de dedicação ao espectador ocasional.

O público teve uma sensação de final e é necessário voltar a captar a sua atenção – no fundo é preciso demonstrar porque é bom voltar a embarcar nesta aventura. Porém, é preciso manter as coisas simples, para que quer os espectadores ocasionais, quer os conhecedores possam embarcar na viagem em pé de igualdade – isso é essencial para que os filmes possam ser pagos – os seus orçamentos são gigantescos e precisam de todo o público disponível.

O curioso e que me inclina a pensar que esta galinha de ovos de ouro está a acabar é que a estratégia que está a ser utilizada é a mesma que a Marvel e a DC usam na BD há décadas – preservar o passado doa a quem doer e apontar para os fãs já conquistados. Qual o resultado? As narrativas tornam-se muito complexas por causa da continuidade e o público que tem a possibilidade de acompanhar os acontecimentos em todas plataformas é sucessivamente menor.

A luta constante deixa de ser a de contar boas histórias e passa a ser a luta para cativar o público.

Quem é que podemos contratar para aparecer no próximo filme? O espectador ocasional ia adorar ver novamente o Wolverine do Hugh Jackman… O estranho é que começaram esta etapa logo por aqui.

Menos será sempre mais

E no final, como acontece sempre, em qualquer que seja a narrativa serializada que se construa, quando já está tudo muito complexo, terá de se simplificar para que todos os espectadores possam entrar sem o custo de ter de ver N filmes ou N séries. Contudo, o mal já estará feito e o público já estará a partir para outra moda pop.

Espero sinceramente que a Marvel Studios esqueça rapidamente a ideia de Multiverso e comece a fazer filmes simples, e com realizadores que possam trazer visões autorais.

Seja como for, fico à espera de um Quarteto Fantástico livre de requisitos prévios. Figas.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
Imagem retirada do site: https://wall.alphacoders.com/

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Fernando Dordio
Engenheiro Informático que gosta mais das palavras do que dos bytes. Escreveu 4 romances gráficos, sendo o mais recente chamado Mindex. É um grande fã de Sérgio Godinho e por isso mesmo, fez um livro de BD no qual o cantor é a personagem principal.

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