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Situação Crítica: Pele de Homem

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Antes de mais, este texto é uma análise a uma obra muito rica e, por causa disso, vou revelar alguns aspectos da trama. Assim sendo, como não quero estragar a experiência de leitura de ninguém, se não gosta de qualquer informação sobre a obra, volte mais tarde. No entanto, não pretendo revelar o final do livro ou alguma coisa de substancial, mas irei falar de cenas importantes ou dos temas abordados.

Penso que o medo de falar sobre aspectos estruturantes das obras, por vezes penaliza as análises e transforma-as num guia de consumo, o que não é manifestamente o meu interesse.

Quem ainda não tiver lido o livro, aguardo-o por cá mais tarde.

“Bianca, uma jovem que vive na Itália renascentista, está noiva de Giovanni, destinada a um casamento com uma família abastada que os seus pais lhe arranjaram. Mas descobre que as mulheres da sua família têm um segredo, uma “pele de homem” que lhe permite transformar-se em homem. E quando Bianca veste a pele de homem surge Lorenzo.”

Começa assim a sinopse deste magnífico livro editado recentemente pela editora A Seita.

Ao contrário do que se possa pensar, este livro é sobre a igualdade de género e não consigo pensar numa melhor forma de explorar este tema, derrubando tantas barreiras que teimam em existir. A pele de homem é uma “sacada” de argumento genial, daquelas que transformam um livro com temas que insistem em não serem normais, num livro com temas que se encadeiam de forma natural, mostrando que a anormalidade está apenas na cabeça das pessoas, não tendo qualquer fundamentação lógica.

O livro não tem uma agenda corporativista, como é habitual sobretudo na BD americana – aqui um autor homossexual tem uma ideia depois de falar com o seu amigo artista, que o desafia para escrever algo sobre a sua experiência enquanto homossexual e como isso moldou a sua vida.

Hubert em vez de produzir o retrato realista da sua vida (e de tantos homossexuais), cria uma fábula onde subverte as convenções da forma como normalmente se abordam estes temas – e é aqui onde reside a chave do sucesso do livro.

A Pele de Homem é uma obra que consegue, aliar de forma magistral a arte com o argumento. Se Hubert cria uma personagem muito cativante como Bianca, Zinzam expressa-o de forma simples e igualmente cativante no desenho. Se olharmos para a página que se apresenta à esquerda, sobretudo na vinheta do meio, a linguagem corporal das personagens é elegante e de genuína graciosidade/teatralidade – essa graciosidade é fundamental para que o livro, tenha sempre um espírito leve e solto (solar, como Zinzam descreve nas entrevistas que li para preparar esta análise), mesmo que se sinta que há várias camadas que estão ali para serem descobertas.

Ainda na arte, a cor é um dos elementos fundamentais da obra, uma vez que o contraste de personagens também se faz, pelas cores aplicadas. Bianca tem um pele branca, que mostra a sua pureza, pureza essa que curiosamente vai ser posta em causa pela pele morena que a transforma em Lorenzo e que a faz descobrir mundo – sobretudo o mundo dos homens. E a paleta de cor é suave e só se torna um pouco mais agressiva quando começam a existir os confrontos com o irmão ultra religioso de Bianca.
Naturalmente, que os olhos grandes e azuis de Bianca são os olhos da curiosidade, olhos de alguém que quer ter mundo, quer desafiar aquilo que a sociedade lhe reservou sem ela ter livre arbítrio – mais uma interpretação perfeita do guião de Hubert por Zinzam ao retratar Bianca em imagens.

A forma como Hubert retrata as mulheres é bastante interessante. É caso para dizer que apenas a protagonista e a sua tia, que lhe dá a pele de homem, têm alguma vontade de transgressão. Assim sendo, as restantes estão obrigadas aos constrangimentos de serem mulheres e aceitarem isso. Mas é interessante que durante o livro, a vontade de transgressão começa a ser contagiosa e vemos mais personagens sofrer por transgredirem o que a sociedade estipulou como “correcto”.

Hubert que viveu numa família bastante religiosa, onde a sua opção sexual era um problema, não deixa de criar um contexto para tecer duras e justas críticas à Igreja Católica. É interessante ver como, o irmão de Bianca consegue estar no polo exactamente oposto, indo para o extremismo religioso, enquanto Bianca caminha para a descoberta de si mesma e dos seus (possíveis) direitos.

Neste ponto da obra, parece-me haver alguma catarse do autor baseada nas suas experiências de vida e curiosamente, a resolução desta parte da trama, vem na figura da autoridade paterna. Não deixa de ser interessante ver Hubert a reprimir o Frei Angelo como (se fosse) um miúdo mimado que não tinha mais para fazer do que andar a perseguir os pecadores, numa sociedade que rapidamente rejeitou este policiamento.

Penso que este é um dos reflexos principais da religião na nossa sociedade – uma mania paternalista de que não vamos conseguir proceder da melhor maneira, sem a autoridade divina para nos guiar. A constante intromissão da religião na vida de quem não a pratica, transgredindo em muito o que é ter liberdade religiosa – é um direito ter liberdade religiosa, mas não o é impor uma religião, ou regras que advêm das suas condutas.
Aqui Hubert trata a religião com a simplicidade com que se trata uma birra, o que é adequado, se formos ver a forma como cada vez mais as pessoas religiosas e extremistas defendem as suas crenças.

A primeira ideia com que fiquei da obra, assim que a acabei de ler, foi que Hubert criou uma fábula, para mostrar que seria possível um Mundo em que o importante era o amor – onde a forma como ele se expressa não interessa. E parece que não tive muito longe do que poderá ter sido a intenção.

Como já disse anteriormente, lendo entrevistas com Zanzim, percebi que ele desafiou Hubert para escrever algo sobre a sua vida enquanto homossexual. Numa primeira instância Hubert criou uma história cheia de raiva, depois de ter visto ataques contra o casamento gay em 2013 em França. Dessa forma, rejeitou ideias que Hubert, “forçando-o” a falar de si de uma forma mais indirecta, a ter uma ideia bastante melhor. E Hubert criou uma história passada no Renascimento, porque foi aí que se começaram a ter as primeiras preocupações sobre a dignidade e direitos do Homem – era a génese da Pele de homem.

Há alguns aspectos da obra que são muito interessantes e que os autores os colocaram para que a sua mensagem tivesse mais corpo e não fosse apenas um manifesto de intenções vazio – para perceber se a minha interpretação da obra poderia ser válida, fui ler várias entrevistas dadas por Zanzim.

Um dos aspectos geniais de “Pele do Homem” é contornar a homossexualidade ou a transsexualidade com outra questão, que é a igualdade de género. Ao fazer isso, Hubert consegue colocar uma questão que ainda tem muito por onde evoluir (a igualdade de género), como aparente tema “principal” do livro. No entanto, numa releitura, o tema mais importante é a liberdade individual e como todos devíamos puder escolher com liberdade a nossa sexualidade, a forma como pretendemos viver a nossa vida, de forma a alcançar o que todos queremos, a felicidade.

A forma como tudo combina perfeitamente, leva a que Zanzim diga em entrevistas que pessoas que não valorizavam as questões individualmente e lhe disseram que no fim de contas é amor, independentemente do resto.

Voltando ao já citado Frei Angelo e o extremismo religioso. Curiosamente o Frei é apresentado como um homem belo, mas que está completamente obcecado por uma cruzada contra o pecado e fica sempre uma dúvida do porquê desse radicalismo – será alguma frustração ou medo da sua carne ser fraca? Ao longo da obra, Angelo vai ganhando cada vez mais poder na sua terra e o extremismo das suas acções começa no queimar de objectos para culminar na perseguição aos pecadores no Carnaval.

Hubert refere aqui as Fogueiras das Vaidades onde era normal a queima de objetos condenados pelas autoridades como causadores de pecado. O termo vem da fogueira de 7 de Fevereiro de 1497, quando defensores do padre dominicano Girolamo Savonarola angariaram e publicamente queimaram milhares de objetos tais como cosméticos, obras de arte e livros em Florença, no último dia de Carnaval.

Hubert parece querer levar a situação para um Carnaval que será aproveitado por Lorenzo para criar uma pequena revolução, mas que será importante para marcar uma posição – mesmo que no fim do dia Giovanni acabe no exílio. Penso que a escolha não será casual, dada a simbologia do Carnaval, sendo Lorenzo a mais perfeita das máscaras e sendo período em que homens e mulheres escondem o que realmente são dos olhos da Igreja.

Outro aspecto importante é que Hubert está interessado em mostrar todos aqueles que não são respeitados pela sociedade. Nesse sentido, mostra Bianca como uma mulher de vai procurar desafiar as regras, mas também vai mostrar a sua irmã, que quando traí o seu marido, porque este a traí recorrentemente, é punida sem apelo nem agravo. E quando está na pele de Lorenzo, Bianca consegue também ver a hipocrisia da sociedade, vendo que os homens que frequentam os lugares do pecado, são os que estão na Igreja a aplaudir o Frei Angelo. E tudo se passa no contexto da época do Renascimento, onde o papel da mulher continuou a ser, o de estar em casa com “amarras”, mas para o patriarcado a situação mudou. No entanto, embora os homens gozassem de maior liberdade para fazerem o que quisessem, a Igreja tinha a obsessão de culpabilizar sempre a mulher como a fonte de todo o pecado.

Para finalizar esta minha análise, queria falar um pouco de um aspecto que me pareceu interessante. Em algumas páginas, Zinzam opta por usar uma narrativa que deixa de lado a narrativa sequencial e passa para uma narrativa onde existe a simultaneidade, o que interpreto como uma inspiração em Bosch, até pelos temas que o artista abordava – além de uma possível influência na paleta de cor que está presente no livro.

Bosch ou “El Bosco”, como era conhecido em Espanha, foi um artista que viveu entre o século XV e XVI no período que antecedeu o Renascimento.

As mais famosas de suas obras foram em realizadas em tríptico, ou seja, eram constituídas por três painéis, sendo um fixo no meio e outros dois laterais ligados ao primeiro com dobradiças ou gonzos. É o caso dos quadros O Jardim das Delícias, As Tentações de Santo Antão e o Julgamento Final. Nestas telas o artista incorpora as suas habilidades excepcionais como desenhista e colorista para dar vida aos temores, pecados e vícios humanos, que assumem o seu característico tom fantasioso.

Zinzam parece trazer para a obra e para o seu traço, visíveis inspirações nos trípticos de Bosch, não fosse esta uma obra que se fala de tentação, luxúria e pecado, tal como a toda a obra de Bosch.

Embora se possa pensar o contrário, o final deste livro, se pensarmos um pouco é muito triste e mostra o pior da sociedade, aquela que insiste em não deixar a tolerância reinar sobre a ignorância e a maldade – Bianca e Giovanni para estarem com quem amam, têm de viver uma farsa.

Hubert era homossexual e suicidou-se, depois de estar num estado depressivo.

A “Pele de Homem” é a obra mais importante que Hubert deixa e que será recordada durante muito tempo, será estudada e até não duvido que será adaptada para peças de teatro, dada a sua teatralidade. Ganhou a maioria dos prémios francófonos porque é uma obra magnífica, densa, com um texto e uma arte geniais – os que acham que foi por moda ou lobby, por favor escrevam nos comentários os nomes das obras melhores que a Pele de Homem para eu ir à procura – recomendações são sempre bem vindas.

A Pele de Homem mostra que todos deveríamos ter a liberdade para encontrar a felicidade, o amor sem que ninguém nos julgasse por isso.

Para quando a tal sociedade tolerante na qual Hubert estaria vivo e a fazer mais obras belas como este livro?

Não queria deixar de felicitar a Editora A Seita, pela aposta neste livro e por ter traduzido o livro com um óptima tradução e uma edição cuidada.

Nota:
– Este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico;
– As imagens do livro foram retiradas do sítio da Editora A Seita;
– A constatação da influência de Bosch surgiu depois de ver um vídeo sobre o livro no canal Quadrinhos na Sarjeta.

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Fernando Dordio
Engenheiro Informático que gosta mais das palavras do que dos bytes. Escreveu 4 romances gráficos, sendo o mais recente chamado Mindex. É um grande fã de Sérgio Godinho e por isso mesmo, fez um livro de BD no qual o cantor é a personagem principal.

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