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O mundo era de pó

Depois de mil anos, quando saíram da escuridão, perceberam que já não sabiam ver a luz. Ainda recordavam como abrir as portas, descer as escadas, pisar o chão, mas isso não chegava. Andar não era a mesma coisa. As ruas não estavam iguais. A calçada era sinuosa. Os pés avançavam tortos, as pernas desaprendidas dos movimentos, o corpo a cambalear com estranhamento. Vagamundeavam pela própria vida.

Ele abriu a porta, desceu as escadas, pisou o chão, mas isso não chegou. Ainda sem se atrever a dar o primeiro passo, observou a palidez do céu e imaginou que talvez a única diferença fosse a cor desbotada pela angústia. A única diferença que mudava tudo. Misturava a respiração com manchas de distância, tingia a saudade com ameaça, dava ao toque uma tonalidade mais parecida à do castigo. Por cima, a angústia era uma camada fina de pó.

O instinto levou-o de caminho à vida anterior, esperando retomar a história após um intervalo. Mas não há mais história, só um cenário duplicado. Os prédios familiares ocupados pela solidão, à janela em vez de gente viu dúvidas. Aquilo que guardava dentro de si eram lembranças ou fábulas? Porque as antigas certezas não sabiam guiar ninguém. Não havia regras para o sentir, os velhos gestos eram inseguros.

Sentiu-se inquieto ao ver o cais ao longe. Entre ele e o mar ainda todo aquele silêncio. Duvidou se voltaria a reconhecer o som da tranquilidade. Cruzou-se com pessoas de expressões falsificadas, quis saber se também a memória delas guardava coisas que inexistiam. Tudo se tinha perdido há mil anos em nome de bens maiores e agora não compreendiam se continuavam a ser de carne ou de que horrores estavam construídos.

E depois, numa rua que já cheirava a sal, viu-a. Sentada no passeio, com flores à sua volta, era uma nota dissonante. Os outros passavam por ela de pernas bamboleantes de incerteza, a vista semicega por uma película de medo.

Ele parou.

Admirado por encontrar aquela palavra certa no meio da demência.

Ela sorria e mostrava as gengivas desdentadas pelos anos. Tinha a pele como as árvores, as costas abobadadas. Não falava, só oferecia vasos com flores a quem passava. Flores vivas, imortais, que não estavam encardidas pela cor do receio. Eram um pedaço de amor, de possibilidade, de reconstrução. Antídoto para o veneno do futuro.

Há muito tempo que ninguém conseguia adivinhar quando seria dia ou noite, mas depois de mil anos de guerra e de escuridão, ele encontrava ali uma madrugada. Sentou-se com ela e ajudou-a a oferecer flores. Outros sentaram-se com eles. Um dia, se todos se sentassem ali, formariam um jardim no qual não caberia a desolação.

Aquela delicadeza tornava real o cheiro do frio, o som dos pássaros, a beleza da tristeza. Respiravam melhor. Acreditavam que seria suficiente abrir a porta, descer as escadas, pisar o chão. E ele pensou que talvez a amabilidade fosse a única linha capaz de remendar aquele mundo.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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