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Sorrisos XXL

Sorrisos XXL

‘Estás larga d’osso. ‘

‘Quem diria, eras um pau de virar tripas.’

Mais vale magro no mato, que gordo no papo do gato.

Quem não é indignado, está fora de moda, digamos assim, não é filho de boa gente.

Indignam-se contra a xenofobia. Afiam-se as unhas para atacar racistas, carregam-se armas, para disparar contra as descriminações étnicas e aperta-se o pescoço aos sexistas.

Veja-se, que até se atiram pedras aos que se indignam de coisa nenhuma, mas quem é que se revolta contra a “gordofobia”?

Há um vírus à solta, muito mais letal que este, que agora ganhou estatuto de pandemia. Um vírus para o qual não se apressam vacinas. Um vírus que se alimenta, engorda, cresce e vive colado aos dias. Um vírus que ataca ideias próprias, pensamentos e reflexões.

Quem não se proteger, será com prontidão militar, catalogado e ‘emprateleirado’. Falo-vos de impostas formatações. As mesmas que querem vestir-nos outros corpos. Os ‘corpos perfeitos’.

Os corpos que se passeiam nas passerelles, os corpos exibidos nos anúncios dos ginásios, os corpos que se enfiam nos fatos de banho, de uma qualquer época balnear e se sentam à mesa de famílias perfeitas, sorridentes, a exibirem caixas de cereais perfeitos, para o pequeno almoço. Uma mente standard, num corpo standard, parece ser a fórmula mágica para o sucesso.

Um molde de corpo imaculado, uma fila de gente, qual máquina de encher chouriços, espera a medo, para saber se se encaixa nele, um controlo de qualidade apertado e rigoroso, um carimbo vermelho, que escarrapacha na testa, a palavra ‘rejeitado’ em letras garrafais. Tudo isto em jeito de: Imaginem lá, como seria.

Parem agora de imaginar. Não se cansem. Basta observarem à volta. Reparem bem, esta máquina de catalogar é real.

Que me perdoem, pois, os que se irão indignar, porque os há por aí, como é do domínio público, mas a perfeição tão aclamada, simplesmente, não existe, lamento.

A beleza física tem-nos chegado em diferentes tamanhos, ao longo da história. Corpos mais cheiinhos, já foram símbolo de perfeição, então porque existe esta tentativa de massificar a nossa carcaça?

Não. Não são só os magros que são sensuais e felizes, não senhor. A felicidade não deveria depender do tamanho de roupa que se veste.

A crescente e ávida cirurgia plástica, acena-nos com catálogo de corpos de ´sonho’, ele há narizes, bochechas, rabos, mamas, barrigas e eu sei lá, que mais. É só escolher. Escolher e pagar. Paga-se bem, mas que importa, se ficamos lindos e maravilhosos? Ficamos outros, irreconhecíveis até, mas que se lixe.

A ostracização dos corpos mais entroncados, é alimentada desde tenra idade e não é difícil recordarmos exemplos e alcunhas, pouco abonatórias.

Salvo raras exceções, não acredito, que alguém engorde simplesmente porque lhe apetece. É verdade, há as pizzas, as Coca-Cola, os hambúrgueres e sofás, mas também há distúrbios hormonais, heranças genéticas, sequelas de tratamentos ou medicamentos, depressões e vícios.

A educação social deveria começar desde cedo na vida, mas sabemos que não é assim e muitas vezes vêm dos adultos, pais e educadores os piores exemplos, de falta de respeito e civismo.

O mundo da moda tem acompanhado de forma ostensiva, esta tendência de exclusão social.

Quem veste números maiores, vê-se encaixotado em roupas largas e escuras. A tirania de uma indústria que assenta em corpos esqueléticos e anoréticos.

A coisa piora ainda mais, quando determinadas marcas, colocam, em letras XXL, claro está, a indicação que ali, naquela ilha, separada da roupa ‘normal’, está a sessão de TAMANHOS GRANDES. Se já não é fácil sair para renovar o roupeiro, pense-se agora como alguém se deve sentir, por estar na tal ilha, a escolher roupa ‘crescida’.

Uns dirão que já se evoluiu, que já há roupas grandes. É verdade e até concordo em parte, mas não deveriam estar nos mesmos expositores das restantes?  Número 32,34…52…, não há números de roupa mais importantes. Há roupa para vender e pronto.

Acabaria com este sectarismo e já.

A roupa que normalmente é colorida e supostamente sensual, não é para quem veste um 52. Não é, mas deveria ser. É claro que tudo isto desmotiva. Não é de todo agradável, alguém tentar enfiar-se nos modelitos disponíveis e perceber que lhe sobra barriga, peito e ancas. Todos, mas todos, deveriam ter as mesmas opções.

Aqui e ali surgem sinais de esperança. Já se conseguem avistar até, alguma campanha, com modelos não esqueléticos, é certo, mas muito a medo, meio dissimulado…

Espanto-me até, como é que o poderoso mundo da moda, não ‘aproveitou ainda este enorme potencial.

Não falo de adaptar os modelos supostamente ‘normais’, a tamanhos XXL, falo de uma moda nova. Uma moda aberta à mudança, a diferentes necessidades.

Se as pessoas se sentirem motivadas, com certeza que irão consumir mais.

E pensar, que há por aí, quem encha os bolsos a dar conselhos, sobre o que cada um deve vestir; um gordo não pode usar listas atravessadas, que horror!

Cada um deve o usar a roupa, dentro da qual se sente bem. Claro que antes, tem de descartar críticas, olhares maliciosos e preconceitos.

Ponham os ‘cheiinhos’ deste mundo, a ser parte ativa neste processo de mudança. Perguntem-lhes o que gostariam de vestir. Deixem-nos dar asas à criatividade. A beleza não é inversamente proporcional ao tamanho que se veste, não senhor.

Veja-se a indústria cinematográfica. Não me recordo de histórias de amor, vividas por gordinhos, nem de heróis…também por estes lados há muito trabalho a fazer. Acredito que grandes atores se tenham perdido, à conta deste estigma.

A ‘gordofobia’ provoca corridas desesperadas a dietas descontroladas. Atropela-se a saúde e o amor próprio, destroem-se personalidades e lá no fim de tanta luta, não está afinal, o prometido paraíso.

Não, não é verdade que todos os magros sejam saudáveis, nem que todos os cheiinhos sejam doentes.

O que deve nortear o comportamento humano, deve ser a busca incessante da felicidade e não a obediência cega a padrões. Cada um deve estar de bem consigo.

Que não se tente fotocopiar, o que é original e único.

Temos um corpo, o nosso corpo, o único que podemos ter, devemos amá-lo, respeitá-lo e a sociedade deve aceitar todos. Sem rótulos.

A energia que se consome a apontar dedos, deveria ser gasta a encontrar soluções.

Acredito que um sorriso XXL, pode ser a melhor arma para combater a toxicidade social.

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Paula Castanheira

Vivo dos números. Débitos e créditos preencheram-me os dias, mas foi nas palavras que encontrei balanço. Sou de partilhas e detesto o 'nacional carneirismo'. Não aceite que me formatem o pensamento e as emoções. A massificação comportamental deixa-me nervosa e adoro falar sobre temas fraturantes. Que se discutam religiões, touradas e sexo, sem rodeios ou medos. Que se assuma o racismo como coisa real e transversal da sociedade. Adoro destronar a mole de indignados de sofá, que prolifera e destrói o pensamento livre. Sou do mar, do sol, das caminhadas. As viagens são um bálsamo pra vida. Uma existência sem livros, é um deserto estéril, sem cor! Aprender todos os dias é o meu lema. A simultaneidade excita-me a energia. Adoro fazer acontecer! Sorrisos, abraços e elogios são remédios infalíveis para muitos dos males do mundo. Sinto enorme gratidão, por um dia ter percebido que os desafios são para agarrar e que levar os dias a cores, torna tudo bem mais engraçado. Porque a vida é mesmo, um lugar fantástico!

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