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Ciências e TecnologiaSaúde

Perda gestacional

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Filho ou filha, continuidade de sonho em forma de sangue mútuo. Perpetuação de valores e linhagens que se abraçam com louvores. Família, o porto seguro onde cada barco pode amarar e descansar. Marca maior de amor, um rebento é o culminar de desejos que se concretizam.

Assim que se sente o seu existir, a alegria é exuberante e a vida que ainda não o é, fica solta para ser planeada e invejada. Será o melhor de sempre, a corporização da perfeição, mundo que nunca mais irá acabar. Esperança de verde profundo, cio de viver inigualável e profícuo. É um mito que se fecunda de tanto o imaginar.

Começa a comunicação privilegiada, as conversas de mãe e filho, as múltiplas e úteis aprendizagens, os dias de suspense e ilusão. Um filho é uma utopia, um mundo que não passa de cenário, mas conforta em tempos de espera. Desenha-se um rosto e um futuro imbuído de mil razões e felicidades.

Tudo se alinha, como planetas em sintonia onde a calma navega em águas de muita serenidade. O barco segue o rumo natural com tempo, sem ondulação nem espuma que se possa misturar. Fluir é uma sintonia onde os sons, surdos e altos, conhecem a leveza de navegar.

Conversas que são íntimas, cheias de confidências e de sonhos, ideias que se irão realizar e sonhos, muitos sonhos, dos que ganham cor e fantasia, para que a vida seja como o desenho que se consegue rabiscar.

Contudo nem sempre a maré fica a favor e o barco naufraga em dor. O que era deixa de ser e o que seria nunca irá acontecer. O porto seguro não o é mais e tudo se desmorona, como um castelo de cartas soprado por ventos cheios de maldade.

Um imenso vazio, um vacúolo gigante, toma conta de um coração que se parte e fica desfeito em mil pedaços. A morte ronda todos os envolvidos. O bebé não o chegou a ser e a maternidade perdida, paira em ares que teimam em fazer chorar e magoar.

Palavras certas para consolar quem passa por estas situações não existem. A companhia, o ombro amigo e o abraço podem ser mais terapêuticos que meros vocábulos que custam a ouvir. Cada caso é um caso e a vida, esse tão belo e radioso milagre, parece querer terminar.

Algumas mulheres entram em depressão, fecham-se e sentem-se culpadas de tudo. Não há culpas nem culpados. As células são sapientes e sabem como se conjugar. A ciência pode explicar, mas a emoção não consegue aceitar.

Há mães que nunca conhecem os filhos, apenas os sentem. Não deixam de ser desejos que não tiveram força para vingar. Conheceram uma casa, mas não viram o mundo.

Há mães que têm um relance dos filhos. Nascem e deixam de respirar. Um sonho que vingou, mas não tinha mais essência para continuar.

Há mães que não chegam a sentir os filhos. Eles não devem continuar e do pouco que havia fica a memória e a dor de deixar partir. Como aceitar que não há vida para se mimar?

Há mães que nunca conseguem que o seu útero seja uma casa doce e protectora. O amor e carinho estão à espera de que um dia se possa ocupar.

Estas mães choram os seus filhos, recordam as datas e não esquecem os desaires. Não são menos mães por não terem os filhos nos braços.

Todas estas mulheres são mães de coração aberto e muito ferido, uma dor que não conseguem sarar. Mãe é a que cria e a que nunca deixa de amar.

Há mães com os braços estendidos, mas com um vazio que não os permite baixar. Há mães que não esquecem o dia que seria para celebrar. Há muitas destas mães e pais que as sabem amparar.

Um filho é um coração que se solta para o ensinar a voar. Um ninho nunca deixa de o ser, mas as penas, que seriam de amor, ganham o amargo sabor de dor.

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Margarida Vale
A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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