Crónicas

O meu pai

A vida é estranha. Já o disse vezes sem conta e certamente que o continuarei a fazer. Estranha por ser cíclica e estranha por ser tão previsível que até assusta. Muitas vezes dou comigo a pensar que perdeu os seus mistérios, mas depois salta logo qualquer situação que me obriga a mudar de opinião. Foi o que aconteceu esta semana.

O meu pai, pessoa que já tinha guardados em si mais de 92 anos repletos de sabedoria e vivências extraordinárias, apagou a sua chama e deixou de estar connosco. Agora já não se aborrece, já não tropeça nos tapetes, já não reclama do que não considera bem, já não se incomoda com coisa alguma, já está mais que tranquilo. Atingiu o seu nirvana. Não que ele acreditasse em céus ou infernos e muitos menos em religiões, mas tinha a sua forma de encontrar o equilíbrio para se sentir bem.

Quem não teve a oportunidade de o conhecer não sabe o tipo de pessoa que perdeu. Aquela fibra era das boas, das que não se gastam com o tempo nem se deterioram com as mudanças de modernidade que acabam por morrer. Foi sempre um homem de princípios e de causas e não deixou o trabalho para os outros pois era ele o militante de dirigente. Ou melhor, era ele quem ajudava a orientar e ensinava os passos de dança de uma sociedade que precisava de muitos ajustes.

Certamente que as memórias não me deixarão órfã, e ainda bem, mas já não posso acrescentar mais nada ao nosso álbum de recordações. Esse fica sempre bem arrumado, numa gaveta especial que se abre de cada vez que a saudade começa a incomodar e a fazer aquelas comichões muito complicadas. Ninguém é eterno, mas o seu legado consegue chegar a esse patamar. Eleva-se e eterniza-se. Nós somos mortais, mas os ensinamentos são de outro nível.

A única possibilidade de viver muitos anos é envelhecer e esse estado não será para todos uma vez que perceber que o corpo e a mente perdem faculdades, torna-se penoso e complexo. Há poucos que aceitam esse estado e muitos menos são os que têm a dignidade de o glorificar. Era o caso do meu pai que soube sempre estar em qualquer momento da vida com distinção e fair play.

Apesar de me custar escrever sobre ele, pois tudo ainda está muito fresquinho, sinto que é uma maneira de manter o nosso contacto e a postura que sempre lhe deu o direito a ser como era. Talvez as palavras não sejam as mais sábias, que ainda estão encolhidas, mas certamente que saem com a mesma vontade com que ele andou por estas bandas, livres.

Gostava particularmente dos mais novos e tinha uma paciência infinita para com todos. Chegava a abrir contas em cafés e mercearias para que pudessem ir comprar pastilhas e rebuçados sempre que assim o entendessem. Claro que todos gostavam dele, mas não era só por isso, as suas histórias cativavam-nos e tinha sempre o auditório cheio. Para eles era simplesmente o Guegué.

Sempre foi diplomata e tinha uma forma certa de resolver contendas sem que alguém ficasse magoado. Uma habilidade maior que não lhe consegui herdar pois a minha frontalidade não me permite estes artifícios que servem para enganar os tolos. Para ele era mesmo “piece of cake”. Delicado e cortês, com um sorriso aberto, cumprimentava sempre quem lhe falava mesmo que não soubesse quem era. Chama-se educação.

Teve uma vida grande, gigante em todos os sentidos. Viveu várias vidas, com nomes diferentes e soube sempre dar a volta por cima. Não, não foi nenhum actor profissional. Teve um papel de maior relevo, esteve na clandestinidade, numa época em que respirar podia ser considerado suspeito e grande parte dos que por cá andam nem sabem o que isso é. Se temos uma maior liberdade, é devida a vários como ele. Nunca vacilou nas suas convicções e essa era mais uma das suas características.

Gostava imenso de gatos e eles dele. Agora tinha dois que eram a sua grande companhia. Merecem um detalhe especial pois a sua chegada nada teve de vulgar. Fica para outras calendas. A minha cadela Rita nasceu no mesmo dia que ele, com um ligeiro intervalo de 82 anos. Eram uns grandes compinchas. Os gatos sentem a sua falta, mas vão perceber, a seu tempo, o significado da ausência.

Pensou em tudo e a morte para ele era apenas mais uma etapa a conquistar. Ofereceu o corpo para a ciência, para ser estudado e por isso não houve lugar a qualquer funeral. Tivemos sim, a oportunidade de lhe dizer adeus, de ficar ainda mais uns momentos com ele antes de deixar de ser nosso. Agora é de todos. Um altruísmo que praticou toda a a sua vida.

Como era bem-disposto, brincalhão e trocista, arrisco a dizer que, depois de ter dado lugar aos outros para estudarem, para seguirem os seus sonhos, chegou a vez dele e entrou para a universidade de medicina. Vai agora continuar a sua missão de ajudar quem precisa, de esclarecer dúvidas, de mostrar como se chega aos 92 anos com uma imensa saúde que lhe permitiu ultrapassar umas barreiras complicadas com a maior das facilidades.

A mão que me deu jamais se soltará. Agora sei bem atravessar as ruas e andar de cabeça erguida, mas os alicerces foram muito importantes. Saber olhar, saber ver e saber escutar são a base dum prédio que se vai construindo e que nunca terá a festa do pau de bandeira. Aumenta tanto que é uma obra infinda.

Ainda tentei que visse as últimas fotos feitas num país que ele tinha imensa vontade de conhecer, mas quem encontrei foi apenas um invólucro, um corpo que estava destituído de carácter e de essência. Estava perdido dentro de si e mesmo que fosse eu a dar-lhe a mão, a travessia que tinha de fazer era apenas dele. Senti que tinha chegado ao fim do percurso.

Não posso dizer que não estou triste, mas sei que ele era uma pessoa maior e por mais que eu aprenda, o que faço com particular gosto, e o que ainda possa viajar, nunca conseguirei chegar aos seus calcanhares. Quero recordá-lo como o meu herói, aquele que tinha sempre resposta para tudo e que conhecia toda a gente.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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