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Crónicas

Escrever

Escrever para fazer a catarse do que vai na alma. Escrever para arrumar ideias. Escrever para criar uma realidade que merece ser e que, se não a fixarmos, continua a escapar-se à existência. As realidades não são apenas físicas. Criam-se realidades mentais, há muito espaço. Ou antes, há um espaço infinito, o que não acontece às realidades físicas que, por ocuparem o seu devido lugar, ao mesmo tempo o retiram a muitas outras que podiam ser.

Gosto do gesto, do acto sempre nobre de escrever com a mão e uma caneta. Agarrá-la e com ela desenhar letras, depois palavras, frases numa folha que se deu branca e vê-la sendo vencida por uma realidade que se vai criando a si própria. Esse gesto da mão independente que pega numa caneta e escreve. Vejo sempre diferença na forma como os canhotos pegam na caneta e interrogo-me como será, para eles, escrever. Calculo que percorram a folha cautelosos, por cima da tinta. Talvez tenham sido tão torturados antes, forçados a ir pela direita, só para evitar borrões, coisa do demo essa. Será por isso que se comprometem a levantar a mão, enquanto os destros a arrastam sobre a superfície onde marca a tinta? Às vezes, alguns, parece-me que antes de escreverem, desenham letras, cuidadosamente. Também há aqueles que, em vez de as desenharem, são capazes de as destruir, como se estas tivessem saído inteiras de um movimento anterior, que as sabe, e esbarrassem desmaiadas informes sobre o papel. Mas o portador destruidor da letra há-de saber qual é, pelo menos antes de a largar assim, no papel. Há muitas teorias aplicadas à forma como se escreve, acusando até aqueles que fazem perfeitos retratos das letras de obsessivos, como se a letra deixasse ver a nossa personalidade. O que dizer dos que escrevem a tombar para a direita, como se ali rajasse o vento? Dos que escrevem letras tão pequenas que parecem querer esconder-se por trás das linhas que lhe dão suporte? Os que escrevem grande, afirmando o seu lugar sem discrição? Guardará o teclado a nossa personalidade tão bem como a letra manuscrita?

E canetas? As canetas… faz muita diferença a caneta com que se escreve. Não se há-de escrever um documento importante, assinar um contrato ou até uma carta de amor com a mesma caneta com que se regista o recado que se pendura na porta do frigorífico. Os cheiros das tintas… Traço mais fino ou mais grosso… As assinaturas em momentos solenes estão muitas vezes associadas a canetas de tinta permanente (seja lá isso o que for) ou daquelas canetas que se assumem como acessório com uma carga que se vai renovando para que a caneta continue a mesma, cheia de salamaleques, com marcas e símbolos e apontamentos de oiro. Dessas nunca gostei. A nódoa de tinta é certa na minha inaptidão a lidar com a cerimónia. Estas canetas impõem a sua própria velocidade, retardam.

Foram um bem precioso, as canetas, na minha infância. Um tesouro disputado com o meu pai, que também as guardava como se a qualquer momento as papelarias deixassem de as vender, não houvesse mais canetas no mundo e houvesse um mundo por escrever e apontar. Este apreço comum, quiçá genético, por este objecto tão banal originou acalorados negócios de trocas e baldrocas entre nós, nos quais, por mais voltas fossem dadas, ambos sentíamos que ficávamos a perder.

Escreve-se para ganhar contra o vazio, contra o nada? Ou escreve-se porque se tem alguma coisa para dizer? Saramago, quase todo feito de conteúdo, dizia que quem não tem nada para dizer, não tem porque escrever, deve calar-se. Pois se não vem acrescentar nada, não faça da palavra uma coisa vã. A escrita não era, para ele, mero exercício estético ou, atrevo-me, literário. Ele criou realidade. Em certas ocasiões até me parece que este real que vemos lhe imita os ensaios escritos.

A viagem vai-se fazendo à medida que a palavra ganha forma. Passar pela sua etimologia e compreender toda a história que se esconde numa sucessão de letras. É possível, olhando a raiz das palavras, descobrir real. Aliás, o real veste-se de palavras para nos deixar compreendê-lo. A palavra materializa o pensamento. Como posso pensar em algo se não o nomear interna e mentalmente? Até o nada que há-de ser aquela ausência de tudo tem nome. Não podemos compreender o Mundo sem palavras. É provável que tenhamos de criar novas palavras para criarmos novos mundos.

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

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