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A covid-19 já nos deu muitas oportunidades

Oportunidades para estarmos calados

Dizem que estes tempos de quarentena são uma oportunidade para estar com a família, repensar prioridades e que, quando finalmente sairmos de casa, tudo vai ser diferente. Desculpem o meu negativismo – ou a minha racionalidade exacerbada – mas eu cá acho que vai ser tudo igualzinho. Ou até pior. Porque vamos sobreviver a uma calamidade e o mais certo é que o nosso carácter de vencedores nos torne em snobs despreocupados com as responsabilidades que todos temos na sociedade.

Além de tudo isto, e como sempre, há uma série de generalizações sem sentido, capazes de exaltar ânimos:

  1. Para todos aqueles que estão em isolamento social, tudo isto é tudo menos uma oportunidade para estar com a família.
  2. Para todos aqueles que estão longe da família, em quarentena profilática, estes dias são só mais um fim de semana de solidão prolongado. O que é triste e faz muita gente perceber que, afinal de contas, viveu num estado anormal até hoje. (Sim, é o meu triste caso.)
  3. Os milhares de pessoas que estão em regime de teletrabalho não precisam de milhentas ideias sobre como passar o tempo em casa. Quem lhes (me) dera ter liberdade sobre como ocupar o tempo. Assistir à partilha dessas ideias só acentua a angústia.
  4. Como não há “compromissos depois das seis”, estar em casa não significa ter um maior controlo sobre o horário de trabalho. Em alguns casos, estás sentado, não sais do lugar e aí ficas noite fora em frente ao computador. Já vi que ter a família à volta nem sempre faz diferença.
  5. É muito fácil dizer-se que não há desculpas para estar parado. Mas não vamos esquecer que há quem viva em minúsculos quartos alugados e, neste momento, há gente fechada em cubículos, longe de todos. Exercício físico só mesmo a dobrar lençóis, lavados a 60 graus.
  6. Dá-nos um ar de tolos felizes pregar que há uma série de aplicações que permitem fazer videochamadas em família. Mas nem todos temos telemóveis supermodernos para fazê-lo. E, com frequência, são os elementos mais velhos da família, que não têm essa tecnologia, quem mais dela precisa. O resto da malta nova já passa o dia nas míticas conf calls.

Resumindo: vamos estar mais pobres, quando a febre do covid-19 passar. Pobres na carteira e no espírito. Porque depressa vamos perceber que todos os erros feitos até então sempre foram e continuarão a ser parte inerente daquilo que é a nossa rotina. Mas se surpreendentemente este período mudar a tua vida para melhor, ficarei muito contente. Haja algo a fazer sentido no meio de tudo isto.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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