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A carta

O Cabo Ramos correu com o impulso da vontade de viver, empurrado pelo medo. Nem sabia o nome daquela pequena vila francesa, algures a caminho da Alemanha inimiga. Ou estaria ele em terras que não eram as do seu lado? Nada disso importava naquele momento.

Corre, Zeca! Corre!”. Gritava ele para o seu amigo de ocasião enquanto fugiam do fogo inimigo. Outros amigos já haviam tombado, mas Ramos e Zeca lograram escapar a uma emboscada das tropas alemãs. Fugiram pelas ruínas imensas do que antes fora uma pacata vila de terras verdejantes. Casas, lojas, uma escola, a Mairie, coisas que eram agora indistintos destroços por onde Ramos e Zeca se refugiavam. Por entre eles fugiram mas o inimigo continuava no seu encalço.

Mais à frente, a velha igreja gótica parecia um forte de esperança no meio da destruição, mas até lá havia um descampado que os iria colocar de novo na mira do inimigo. O engenho levou-os a preparar uma ratoeira de forma a caçar tempo. Vidros por baixo, pedras por cima apenas seguras por um barrote equilibrado no fio de uma navalha. Preparados, atiraram uma pedra e duas, e à terceira acertaram em cheio causando a distracção que lhes permitiu correr em campo aberto até à igreja.

No ultimo passo, a rajada das metralhadoras alemãs cortou o ar e atingiram Zeca. Saltou em dor para o interior da igreja onde Ramos já se escondia. “Zeca, Zeca” chamou o amigo. Mas o seu destino já havia sido escrito pelas balas que lhe roubaram a vida. No horror de ver o amigo tombado, Ramos sentiu o chão a trepidar e o som metálico de um primitivo tanque surgiu por entre as ruínas da vila. As balas calaram-se e fizeram adivinhar o pior. Um tiro de canhão disparado pelo tanque, depois outro, um terceiro apenas para finalizar a vida daquele jovem perdido em terras que não eram as suas, numa guerra que não era a sua.

Uma parede explodiu e logo esmagou o já moribundo Zeca. Depois o tecto desabou lá do alto sob o Cabo Ramos já a rezar ao seu pai, seu amado pai, por quem se alistou nesta guerra.

Ramos era português, mas crescera em terras da Alsácia, para onde o seu pai levara a família em procura de uma vida melhor. Aos primeiros tiros disparados da Grande Guerra, fugiram de regresso a casa deixando para trás a vida que construíram. Por isso Ramos logo quis regressar e lutar para recuperar as terras ganhas pelo seu pai com sacrifício enada mais do que a força do trabalho. Sabendo que nada faria demover o seu filho, entregou-lhe uma carta fechada e disse-lhe no segundo antes de se despedir:

– Filho, nesta carta digo-te algo importante que quero dizer-te em pessoa quando regressares. – Disse o pai a Ramos.

– Não compreendo pai. Porque não dizes já? – Perguntou Ramos.

– Irás perceber porquê quando regressares ou se sentires que a guerra te vai derrotar, naquele último momento em que já não tiveres força para lutar, abres a carta para saberes antes de partires.

– Eu não vou desistir, pai!

– Eu sei, filho. Mas preciso que saibas o que está aí em vida.

– Está bem, pai. Adeus meu pai.

Esta última conversa estava nos pensamentos de Ramos ali no silêncio, soterrado em destroços. Via uma nesga de luz pelo meio de uma amálgama de barrotes caídos. As pernas estavam presas debaixo de um amontoado de destroços variados. Tinha sede, os lábios gretados e o gosto do pó na língua. Um braço doía-lhe e estava negro mas o outro parecia ter escapado incólume. Procurou sair mas mal se conseguia mexer. As dores eram muitas e vinham a espaços como lentas e ritmadas facadas de gelo. A carta do seu pai. Pensou ser altura. Chegou com o braço à cintura e consegui afastar algumas pedras até chegar ao bolso das calças. Retirou a carta e ficou a olhá-la. Sentiu que aquele envelope amarrotado pela violência da guerra era a única coisa que o mantinha ligado à vida. Pensou ser altura de saber o que o seu pai lhe havia escrito, o que o seu pai lhe queria dizer naquele último momento. E pensou no seu pai, recordou-o, sorriu e chorou. O seu pai. O seu pai. Estava na hora, ele sabia. Segurando a carta com a mão ferida, começou a rasgá-la mas logo parou. A imagem do seu pai não o deixou continuar. Esperou mais um pouco, respirou mais algum ar, aquele que ainda conseguiu, e adormeceu.

Depois, do silêncio fez-se a esperança. Vozes francesas surgiram vindas do nada, quase por milagre, quase no último instante. Um soldado aproximou-se e gritou para o interior da igreja caída. “ESTÁ ALGUÉM AÍ?” Esperou um pouco e antes de seguir caminho ouviu uma voz abafada por destroços e pela fragilidade humana. “Ici!”.

Dois meses depois, em fase final de convalescença, Ramos regressou à pátria Lusitana. O seu pai abriu a porta e em lágrimas recebeu o seu filho de volta.

– Meu filho!

– Estive quase a partir, meu pai.

– Mas regressaste e só isso importa.

– Quase desisti, meu pai, senti a morte à minha espreita. Cheguei a começar a abrir a carta mas pensar em ti manteve-me vivo.

– Foi para isso que ta dei. Abre-a.

Ramos abriu a carta, retirou uma folha dobrada em três, estendeu-a e apenas viu a folha em branco.

– Não percebo, pai. Afinal que me querias dizer?

– Que naquele último suspiro, quando já não acreditasses, que não desistisses! Quase abriste a carta mas algo te fez não desistir. O que foi?

– Querer saber por ti.

– E agora já sabes, meu filho. Bem vindo de volta.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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