Alguém a colocar o seu voto na urna.

O animal político e o prato da sopa

A política determina a qualidade de vida das comunidades. Os diversos tipos de regimes têm atravessado a História ao sabor das especificidades do tempo. Teocracia, monarquia, república, democracia, ditadura são alguns exemplos.

Desde a Antiguidade que a organização e o modus operandi do exercício do poder sobre a sociedade tem ocupado a mente humana. Na Grécia, Aristóteles desenvolveu o conceito de animal político ou social segundo o qual o Homem é entendido como incapaz de viver fora de uma sociedade. Esta deverá assumir uma organização dotada de normas morais e éticas que conduzam à tomada de decisões para o coletivo. Também na Grécia nasceu a ideia de democracia, ainda que não possa ser entendida de acordo com a noção atual. O exercício dos direitos políticos não abrangia toda a sociedade. Apenas um grupo de privilegiados detentores de poder económico, provenientes de famílias tradicionais, tinha esse direito. Eram aqueles que os gregos designavam por cidadãos. As mulheres estavam excluídas deste processo, logo pela sua condição feminina.

A saúde económica, mãe de todas as decisões políticas, vitalizou, ou, pelo contrário, contaminou estratégias e mentalidades.

Em Portugal, a par de inúmeros problemas sociopolíticos, o regicídio (1908) abriu as portas à revolução republicana ocorrida em 5 de outubro de 1910, a qual quebrou privilégios e enfraqueceu tradições. Considerou-se que o Homem passaria a valer sobretudo pela instrução que possuía. A legislação (Constituição de 1911) permitiu uma alteração significativa ao funcionamento político do país, ainda que contivesse limitações quanto ao que consideramos hoje democrático.

As dificuldades económicas que já se vinham sentido agudizaram-se. A instabilidade e a falta de sopa no prato levaram a uma onda de agitação social refletida em manifestações, greves e, mesmo, atentados à bomba em Lisboa. Era urgente ordem e disciplina, o que facilitou o caminho da marcha do general Gomes da Costa que, em 28 de maio de 1926, impôs uma ditadura militar. Também esta não conseguiu encher os pratos dos portugueses.

O “Mago das Finanças” vindo de Santa Comba Dão surgiu como o Salvador da Pátria. Sabia muito bem o que queria e para onde ia. Exigia obediência. Em 1933, estava oficializado o Estado Novo alicerçado num regime ditatorial de tipo fascista. Cada um devia praticar a política do prato da sopa, do pãozinho de cada dia num país pulverizado de apatia e orgulhosamente só. Só teria problemas na vida, quem se metesse na política por caminhos não permitidos.

Em 25 de abril de 1974, pressionados pela asfixia de uma guerra que não tinha fim à vista, os militares do Movimento das Forças Armadas puseram, com êxito, em marcha a devolução da liberdade e o regresso da democracia. Então, fomos livres de dizer e de optar. A política não podia continuar a ser unicamente o prato da sopa. Um ano depois, nas primeiras eleições livres em que todos puderam votar, inclusive as mulheres, a esperança de uma política justa e promotora do bem-estar coletivo encheu muitas ilusões. “Fascismo nunca mais”.

Hoje, o prato da sopa continua a comandar a prática política. Os interesses individuais, que qualquer um defende à mesa de um café, voltaram a ser gritados pela voz dos populistas em tom fascizante. O cidadão comum vota quando lhe convém e abstém-se quando lhe apetece. Por essa Europa fora a onda agiganta-se. É necessário que possamos escolher para que outros não nos venham servir um indigesto prato de sopa.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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Comments 4
  1. É mesmo preciso exercer a cidadania para que prossigamos em democracia e não nos caia na sopa qualquer ser fascinante que espreita a oportunidade. Parabéns pela análise política e sua evolução.

  2. Paula, o teu artigo é deveras interessante e importante. De facto, ultimamente a política e os seus intervenientes têm servido pratos de sopa muito indegestos que nos faz pensar se a memória não estará a falhar. Esperemos todos que o retrocesso não vingue e que a geração mais jovem acorde da redoma, que é a ilusão em que vive. Parabéns, pelo tema!

  3. Um tema bastante pertinente, que certamente nos faz pensar. O título é muito cativante e o conteúdo convida à reflexão. Obrigada pela partilha, gostei muito de ler.

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