Celeste Caeiro

Celeste, uma humilde empregada de um restaurante de Lisboa, a mulher que sem querer deu nome a uma revolução, fechou hoje os olhos de vez.

No dia 25 de Abril de 1974, o restaurante Franjinhas, localizado no edifício com o mesmo nome, completava um ano. O dono, para comemorar, tinha feito uma encomenda de cravos, a flor da Primavera e típica da época.

Contudo, os acontecimentos do dia mostraram que a comemoração seria outra e não valia a pena esperar por clientes que nunca chegariam. O dia era de mudança, de voz que se abria e que dava asas ao bem mais almejado, a liberdade.

Sem trabalho para fazer, naquela quinta-feira de Abril, dia 25 de 1974, Celeste, a que trabalhava naquele restaurante, regressou a casa com os cravos que o patrão lhe deu. “Hoje não há movimento. Leve-os para não se estragarem.

No Rossio e Chiado, havia movimentação, gentes que surgiam de todos os lado, o que provou ser uma dia diferente do habitual. Um soldado, um jovem que estava a mudar o país sem o saber pediu-lhe um cigarro, um hábito da época. Como não fumava, deu-lhe um cravo que este, de imediato, colocou no cano da arma.

Celeste, nome de anjo disfarçado, escreveu poesia no seu gesto simples e despojado, tal como ela vivia. Na sua frente estava a futuro, que se pintou de vermelho. Os cravos que levava eram de mais cores, onde o branco provava que a paz havia chegado. O ansiado dia era aquele, mesmo que tudo tivesse sido tão rápido que nem se conseguia absorver come se pretendia. Era a emoção a ganhar terreno, a de respirar sem opressão.

Esse dia, onde a liberdade cantou a plenos pulmões, com fúria canora de ave sem grilhetas, ficou mais belo com estas pinceladas onde o vermelho, a cor que é a revolução, brilhou para chamar a atenção. Tudo mudou. Celeste deu o seu enorme contributo e afinal só estava de regresso a casa. Ali começava a nova casa, um edifício que levou tempo a ser feito e que nunca parará de receber obras.

Celeste, do povo singelo, de trabalho e labuta, partiu aos 91 anos, no dia 15 de Novembro. A avó da liberdade ganhou asas. A luta continua. Assistiu aos 50 anos, o meio século do dia que ela, muito educadamente, apadrinhou. A eternidade é sua mesmo que os livros a ignorem. A memória não a esquece.

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