Impressões do Caminho de Santiago

Dia 8

Padrón – Santiago de Compostela

São quatro da manhã e ontem não terminei de escrever tudo o que queria (apareceu a Rose e mais tarde a Patrícia e a Ângela). Despertei com as galinhas (isto é, com o Pinheiro – o brasileiro de Rubiães – e com o português de Amares que escreve poemas inspirado nas peregrinas que vai encontrando) para continuar escrita fora, com o que ontem tinha na ideia.

Quatro da manhã e chegámos ao último dia de Caminho! Ninguém me convence de que o tempo não estende ou encolhe em certos períodos da nossa vida consoante o modo como olhamos para ele: o tempo psicológico existe e é tão ou mais real do esse outro tempo marcado pelo compasso dos relógios, árido, desprovido de qualquer outra intervenção além da construção do aparelho que escraviza as nossas vidas. Estes sete dias de Caminho (completamos hoje o oitavo) decorreram num disparo… e quanto coube nesse disparo! Os dias atropelam-se na memória, tal como as paisagens e os quilómetros percorridos. Um ou outro acontecimento localiza-nos num momento ou num lugar… ao terceiro diaem Pontevedra… mas muito do que aqui vivemos se confunde. Passou-se tanto em tão pouco tempo e contudo, foi há uma vida que partimos sem que eu consiga embelezar algo digno de um diário minimamente fiel ao que fui sentindo. O tempo é mesmo elástico: somos nós quem o torna proveitoso pelo jeito como levamos a vida e olhamos para o que vamos construindo.

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Não sendo estes fragmentos um relato coerente de uma viagem mas tão só um aglomerado mais ou menos desligado de pensamentos que durante o Caminho me vão visitando, falta-lhe estrutura. Este texto – como todos – presta-se mais ao propósito de me libertar do que de cumprir os requisitos de um diário de bordo no qual alguém possa ler o meu Caminho. Ainda assim, sinto mais Caminho nestes escritos do que se começasse a descrever as subidas entre Mós e Ponte Sampaio, a variante do rio junto a Pontevedra, a subida da Labruja, as igrejas em que entrámos, os lugares que visitámos ou o arroz cubano (o mais forte concorrente que provei na vida para entrar no Guinness como a maior merda alguma vez servida num restaurante da Via Láctea). Poderia ter falado mais nas pessoas com quem vim e nas que encontrei mas o que escorregou para aqui foram os desabafos de uma viagem pessoal não planeada, o lado íntimo do Caminho, aquele que permanece para lá dos convívios, das discussões, do cansaço e do banho revigorante. Contudo, é este lado partilhado que o Caminho nos oferece que enriquece estas reflexões, que faz nascer sentimentos, lembranças, vontades… mesmo que não consiga exprimir nada disso numa escrita equilibrada; contudo, estão de acordo com o meu estado de espírito. Só pode ser assim.

Nada disto era para ter sido escrito, mas a escrita foi mais forte.

São quatro e meia e está na hora de voltar à camarata para pegar na mochila, entre “ressonares” e “despertares”. O novo ritmo de vida que chega hoje ao fim: mal teve tempo para ser novo mas é uma variante que nos traz uma satisfação tão grande.

Pádron, sexta-feira, 31 de Maio de 2019

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Não contava terminar o Caminho de Santiago desta forma e no entanto, não consigo definir com exactidão o que tinha em mente. Uma certeza (das poucas) que tenho é que não esperava sentir nada – à semelhança do ano passado – à entrada da Praça do Obradoiro, mas cedo percebi que hoje não iria ser assim: senti mil e uma coisas, lágrimas de alegria e de tristeza ao longo do Caminho mas também no final, como há muito não me acontecia, ao olhar a Catedral, à sombra, depois do esforço e dos abraços.

Os abraços…

A entrada na praça do casal checo em lágrimas, casal com quem nos cruzámos tantas vezes entre albergues, cafés e ultrapassagens; a Cláudia no chão a chorar; o Carlos e o amigo a quem devolvi a carteira que a Bárbara encontrou nesta etapa; o Pinheiro, o Andreas e a Lara. Todos já lá estavam quando chegámos e, à excepção do Andreas, de todos recebi um abraço. Guardei as palavras que me ofereceu a Vanda G. durante o abraço que demos, à sombra da chegada, tal como a amizade que o abraço do António selou. Num abraço cabe tanto mais do que um abraço.

A Lena foi grande aguentando-se estoicamente perante as dificuldades que o Caminho lhe colocou; a Bárbara e a Gui mantiveram o equilíbrio durante todo o percurso, fiéis da balança desta caminhada; a Lu e a Sandra superaram as mazelas dos primeiros dias – não é fácil começar em desvantagem.

A Vanda A., a Liliana e o Jorge chegaram pouco depois, a tempo dos últimos abraços e da foto de grupo. Só faltaram a Patrícia, a Ângela, a Rose e a Lidicimar para estarem presentes todos aqueles que tocaram no meu Caminho. E faltou a Patrícia que, comigo e com a Sandra, testemunhou a estreia nestas andanças no ano passado.

A melancolia que atravessou toda a etapa tem na sua génese razões que são ainda para mim um mistério, mas tem também outras que identifico com uma nitidez tal que roçam a vergonha, mesmo sem haver razões para tal.

Muitas sensações me assaltaram ao longo deste Caminho mas hoje andei numa montanha russa que condensou o que vivi desde dia vinte e três, quando partimos de Lisboa para Ponte de Lima. Deixei-me ficar para trás mais ou menos no mesmo sítio onde o Hélder se adiantou no ano passado. Disse-me ele então que às vezes sentia necessidade de se isolar para reflectir e agradecer. Fiquei-me pela reflexão. Pelo meio das divagações, fui-me perdendo nas paisagens que nos acompanharam: ao observar os quadros por onde fomos viajando, ao nosso ritmo, fui-me apercebendo de novo no que perdemos todos os dias, sugados pelo andamento frenético (ou pelo menos distraído) das nossas vidas. Não é esta uma conclusão muito original mas no Caminho, temos tempo para absorver a paisagem, a beleza das imperfeições, a maravilha que se forma em nós com as silhuetas das árvores, montanhas e monumentos na aurora… adivinhamos o que escondem os contornos que se vão definindo contra o azul do céu em formação e parece-me conhecer melhor cada elemento que compõe este cenário ao vê-lo desenhar-se enquanto caminho. O mundo apresenta-se-nos como um mistério que no Caminho de cada dia vamos redescobrindo aos primeiros tempos da madrugada.

Santiago de Compostela, sexta-feira, 31 de Maio de 2019

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