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Crónicas

Tu pars seul ou tu veux que je t’envoie?

Ou a desvalorização do palavrão no contexto certo

Naquele verão, aprendi muito. Gaiata pequena, 6 ou 7 anos,  habituada à claustrofóbica cidade, onde nem na rua me era permitido brincar, que não ficava bem às meninas, corria então, dia fora, com as crianças da aldeia. Com elas aprendi a tomar banho no rio, a descamisar milho, a levar o gado à serra, a apanhar batatas. E algumas asneiras, também, da forma mais natural possível. Aculturação é isso, certo?

Numa dessas noites, hora de jantar, cheguei a casa da minha madrinha e tia-avó,  e ela, escondendo o riso com dificuldade, perguntou-me:  – o que disseste tu hoje no adro?? Fiquei calada, não fazia ideia a que se referia. Ela insistia, até que percebeu que eu de facto não tinha noção do que tinha proferido, e sem demais floreados, perguntou-me: – por acaso não disseste f### – se?  – Sim, e então? Há mal nisso?

Achava eu que era um sinónimo de bolas, fogo, caneco, por ai… Acredito que se tenha rido da minha, mais que ingenuidade, palermice absoluta. E lá me explicou o que significava.  – Foi o Ti’ Alvaro que me veio contar, disse ela, que achou estranho uma menina de Lisboa (e desse estigma não me livrei), ter essa linguagem. E eu achei estranho um homem, daquela idade, ser queixinhas…

Esse Ti’ Alvaro, velho e coxo, saiu-me uma bela coisa… a frontalidade só lha conheci mais tarde, quando na curva da fonte, à porta da sua casa, me disse:  – Chamas-te Sandra, não é? Não gosto do nome. Nesse dia aprendi o que era reciprocidade. Educadamente, como uma menina de Lisboa, respondi, embora sem predicados de  advérbios de modo nem proposições complexas,  que também não apreciava o dele.  E numa tocada só, aprendi ( mas não o suficiente …), o que é a contenção, e que também que não vale a pena adiantar mais conversa a gente de mal com a vida. Ou morta. Ou ambas. Paz à sua alma. Ora pro nobis. Amén.

Mas isto, para chegar ao ponto de que os palavrões, sendo  interjeições de espanto, irritação ou desabafo são muito mal vistas. E muito desconsideradas na sua validade enquanto forma de expressão. Obviamente que não farei o elogio do palavrão, mas tenho em crer que são grandes indicadores da comunicação.

Os palavrões mais correntes provêm duma raiz latina, românica, e sempre associados a uma de duas funções corporais: sexo e excreção, seus tabus e perversões. É visível a semelhança entre palavreado português, francês e espanhol, com pequenas variações de léxico, mas em tudo considerando um aspecto grosseiro, desagradável. Aquela palavra que designa o órgão sexual masculino, tem, para além desta, outra possível origem. De facto, se observarem um mastro dum veleiro, verifica-se a existência de uma pequena cesta, bem no topo, de onde se fazia a observação de mar e terra. Dado o seu difícil acesso e baixíssima segurança, eram para lá enviados não tanto aqueles que teriam maior destreza física, mas antes aqueles que não eram de todo apreciados, daí a adulteração da instrução: vai para o Car###o.

É engraçado (e essas memórias trago-as também dessa altura), como as pessoas, com alguma educação, leia-se contenção vernacular, adaptaram e criaram novas expressões para os impropérios: fosga-se, pine-se, fónix, cum-canário e afins. Relembro as velhotas mais delicadas  a dizerem estas palavras, mas podiam dizer flor ou fruto, o que contava, o que traduzia a intenção, era de facto o tom em que era dito, muito esclarecedor e sem margem para dúvidas.

Havia também a malta menos requintada, que usava os ditos palavrões, expressos e claramente impressos, em todas as conversas, perdendo já o seu significado de desabafo para serem reduzidos a bengalas da comunicação. Caso celebre, algumas mulheres do norte, que os usam tanto, que já não se denotam na sua expressividade. Ao fim de um tempo, ignoramos os termos, e ouvimos apenas o importante, como quando descodificamos a língua dos Ps que alguns de nós usámos em crianças.

O que nos leva ao cerne da questão: dependendo do seu uso, tom ou momento,  pode ser inócuo ou ofensivo, libertador ou indecente.

Se por norma não usamos tais expressões, e algures no tempo nos servimos desse vernáculo, talvez seja, continuando na sintonia do marítimo, um aviso à navegação. Não passa dum sinal de que algo excedeu negativamente as nossas expectativas, nos chocou, nos aborreceu de morte, ou foi percebido como descabido ou mesmo agressivo. E nesse sentido, libertando a raiva, pode ajudar ao serenar dos ânimos. Pode indicar ao nosso interlocutor que achamos que se está a exceder de alguma forma, permitindo que este ajuste o seu comportamento, muitas vezes chocado com a nossa atitude. De forma mais gravosa, uma palavra no momento certo, pode suster alguém que gerou energia para levantar um touro no ar, mas que se contêm, para não causar danos maiores, verbais ou mesmo físicos.

No outro dia aconteceu-me um episódio desse género. Primeiro fiquei muda, sem reação, a travar mãos e língua, porque lá diz o outro, dai-me paciência, porque se me dais força…..Depois entrei no carro, liguei a um amigo, e disse:  – deixa-me primeiro dizer  umas carvalhadas (puxando à minha excelsa educação que rapidamente caiu por terra), que já te conto. Destravei a língua, e nem precisei do livro da Luísa Ducla Soares…  E se o falecido Ti’ Álvaro me tivesse ouvido,  talvez usasse a expressão que a colega de Redação, a  Sofia, usa quando o ridículo lhe assalta os olhos por detrás dos óculos amarelos, e proclamasse um bem soado: estou paneleiro dos olhos. Ou dos ouvidos, no caso.

A língua permanece em evolução e a criatividade é imensa. Anos de Pide, acredito, desenvolveram em nós formas de contornar o lápis azul. Gosto de atentar na forma extremamente educada, aliada a um olhar provocatório, quase a bater pestanas,  de alguém que diz, em tom quase meigo: e se te fosses sentar num cacto mexicano? Inesquecível é também aquele momento do  filme Adão e Eva, 1999, em que Joaquim de Almeida diz à Maria de Medeiros: – Vai à m###a! E ela, num sussurado, responde: – vai tu!. É quase, quase  amor…

Há outras variações mais educadas, como: vai ver se chove, vai ao parque de estacionamento ver se eu lá  te espero, vais sozinho ou queres que te mande, etc, etc…. o importante é ir. Embora, claro. E depressa, se não for pedir muito..

Mas o importante é nunca, mas nunca,  perder a classe, e se preciso for, mandar em francês, que fica sempre bem.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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