ContosCultura

A Ilha

Na primeira vez em que aconteceu, desisti de pensar na morte. Ironicamente, percebi que, afinal, me deixara morrer.

Na noite seguinte tornou a acontecer. Sucederam-se mais quatro aparições e à sexta noite o mundo ruiu.

O lado ocidental da ilha ganhara a minha preferência. Elegera-o como a minha morada oficial, onde construí uma pequena cabana, feita com madeira e restos de folhas que fui encontrando. Nas imediações da cabana, ocultada pela vegetação muito cerrada, uma pequena praia, à qual tenho a tentação de apelidar como a minha praia privada, apesar de, bem vistas as coisas, tudo numa ilha deserta poder ser considerado privado.

A noite estava calma, uma massa de ar quente abafava o som fresco das pequenas ondas. Acordei estremunhado, o corpo suado devido ao calor. O que se passou a seguir deteve-me a respiração por um instante. Foi nesse momento que a vi: a lua iluminava a água e no meio do negrume, a luminosidade arrebatadora da silhueta. O corpo despido submergia e voltava à superfície de forma compassada. Este ritual durou cinco noites: eu ficava escondido a observar, ela nadava calmamente na pequena praia e depois desaparecia por entre a vegetação, ao fundo.

Durante os primeiros dois anos – presumo terem sido dois anos, pois um náufrago numa ilha deserta faz o tempo correr à velocidade da solidão – dediquei-me à tarefa de explorar a ilha, tentando descobrir, em vão, alguém com quem comunicar.

“Que tamanho acha que o universo tem?”

“É infinito, tal como o amor.”

“Como pode ter assim tanta certeza?”

“Não tenho. Prazer, chamo-me Robert, um náufrago entregue ao tédio e à solidão.”

“Sou a Ellen, uma alegre náufraga e alguém que você gosta de espiar.”

“Como descobriu que eu a observo, Ellen?”

Sorriu, os grandes olhos verdes a brilhar. Tinha sardas e um cabelo comprido, da cor do sol. Afagou-me a cara e encostou os lábios carnudos nos meus. Demorou-se uns segundos, voltou a sorrir e respondeu: “Sou uma sacana atenta.”

Ocorreu-me várias vezes que seria assim o nosso primeiro encontro, a nossa primeira conversa, um dia, quando o acaso tratasse de nos apresentar e, quem sabe, juntar. Imaginei-lhe uma voz rouca, um olhar penetrante, excitei-me com o seu cheiro frutado, senti-lhe a pele salgada, os cabelos na minha cara.

Ainda hoje, quando olho para a praia, me lembro dela. E é isso que resta de mim: a memória. Ou a imaginação, não sei bem. Ou talvez o medo. O medo de me ter apaixonado por uma ilusão e pela ilusão da aventura que me trouxera desafortunadamente a esta ilha; o medo da memória me trair; o medo da solidão e da demência cavalar; o medo de me ter deixado morrer por amor.

Deixara eu de distinguir a realidade? De que têm mais medo as pessoas?

Durante vários dias pouco mais fiz do que dormir, a cabeça latejava, o corpo pesado. Deitado de barriga para cima, na areia junto à água, voltei a pensar na morte.

Levantei a cabeça, tornei a vê-la submergir.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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