As matizes da alma solitária

Somos programados para viver em sociedade. Contudo, o que se constata na atualidade é que as pessoas se sentem cada vez mais sós no meio do bulício da vida e perante o domínio das redes sociais.

Sempre houve quem se sentisse só mesmo no meio de uma multidão. O sentimento de não pertencimento é um estado de alma que afeta muitos, especialmente os considerados “as ovelhas negras”, quer das famílias, quer da sociedade.

Muitos afundam-se em depressões, tristeza profunda, ansiedade, perante esta situação de solidão. Frequentemente, esta situação é devida a um estado de isolamento involuntário que é muito comum, acima de tudo, entre os idosos. A síndrome do “ninho vazio” começa quando os filhos saem de casa e prolonga-se até à velhice, na maior parte dos casos.

Há muitas pessoas que sofrem profundamente com isso, sentindo falta do convívio, dos afetos, o que leva ao surgimento de doenças do foro psicológico, nomeadamente, à demência.

Face aos altos níveis de solidão e consequentes transtornos, o Reino Unido percebeu a necessidade de erradicar esse mal silencioso, criando o ministério da solidão. Nove milhões de pessoas, segundo a Cruz Vermelha Britânica, dizem viver permanente ou frequentemente sozinhas.

Após o Covid, durante o qual teve que haver um isolamento forçado, muitos ficaram a trabalhar em casa, on-line, originando mais solidão ainda.

O ser humano é sem dúvida um ser social. Daí, o prazer em estar com os outros, da família, dos amigos.

Será a solidão um problema social ou uma escolha pessoal?

Se, por um lado, a desconexão social seja vista como um estigma, ligada a problemas mentais, por outro, existe a opção da escolha em estar sozinha com inerentes vantagens, especialmente no que concerne ao autoconhecimento.

A solidão é considerada uma epidemia, com efeitos comparáveis a fumar quinze cigarros por dia, segundo estudos científicos. Porém, num mundo cheio de informações e interações sociais (muitas vezes nefastas), ficar sozinho por um tempo pode ser muito benéfico para a saúde mental.

Frankenstein, de Mary Shelley, discute a rejeição e o isolamento de um monstro criado durante um esforço científico. A pintura O Grito, feita por Edward Munch, retrata um homem desesperado que parece agonizar sem uma única pessoa para apoiá-lo. Na música Eleanor Rigby, os Beatles observam “as pessoas solitárias” e questionam “de onde elas vêm”.

Como encontrar o equilíbrio? A solitude é o ato voluntário de se isolar para se encontrar a si próprio. A meditação é uma das formas de ficar em silêncio para esse reencontro. Uma caminhada é também é também uma maneira de se reconectar consigo.

Reservar um tempinho para si mesmo é primordial para o desenvolvimento do autoconhecimento e da inteligência emocional que leva o individuo a lidar melhor com as emoções que sente quando interage com outras e assim, guiar a sua vida com mais destreza. Saber desfrutar da sua própria companhia é algo que nem todos conseguem, levando, muitas vezes, a relações inconsequentes e vazias, cheias de carências.

Sentir-se sozinho pode mesmo levar à angústia. Há pessoas que nem almoçar conseguem sem companhia. Não somos todos iguais e há que respeitar as diferenças.

O equilíbrio é sempre a melhor solução. Há que respeitar o espaço de cada um e compreender que estar consigo próprio é um grande presente. Prolongado, contudo, pode ter o resultado oposto.

Haja empatia e compaixão e saber estabelecer conexões saudáveis connosco próprios e com os outros.

Nota: Este artigo foi redigido segundo o Novo Acordo Ortográfico

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