Dia 3
Tui – Redondela… ou melhor: Tui – Mós

Top of the World
Há dias em que uma canção não nos larga desde o despertar sem que saibamos a razão; hoje foi um desses dias. Durante a primeira metade da etapa – até Porriño – viajei pelo Top of the World dos Carpenters e enquanto cantava (mais para mim do que para os outros), mostrei mais uma vez – empiricamente, é certo – que nem todos demonstramos a alegria da mesma forma. Para mim, não são apenas as gargalhadas ou as excentricidades que elevam o espírito e atestam o carimbo da felicidade mas um bem-estar que pode ou não encontrar correspondência no comportamento perante os outros.
Hoje o plano inicial foi alterado pela primeira vez com as dores, as feridas e as bolhas a fazerem das suas. O modo como fomos tratados pelo filho da puta do café em Porriño, que nos deu as ementas sem nos deixar escolher, começando a arrumar as cadeiras sobre as mesas enquanto ainda estávamos sentados, lançou o mote para os dezassete quilómetros que faltavam para Redondela.
Asfalto e calor.
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As pedras no Caminho fazem parte da viagem mas também nos oferecem oportunidades que havíamos deixado passar: no ano passado adorei Mós, uma “aldeia de bonecas”. Foi aqui que a paragem forçada nos trouxe! Como adoro os lugarejos no meio do nada! Estou num varandim de pedra junto ao bar do albergue municipal com a montanha em frente e uma sombra abençoada (neste momento estou quase a voltar a crer em Deus para lhe agradecer este momento) a proteger-me da ameaça de escaldão em mais um dia tórrido. Não poderia sonhar com melhor cenário para escrever.
Uma barulheira assassina polui este sossego: miragens do Verão a chegar com as arruadas e os bailaricos, algo de que gosto mas que hoje dispensava. Uma sorte as palavras e as fotografias não terem voz nem ouvidos: as imagens que descrevo não vêm agarradas a este cuspo ruidoso que as colunas espirram e a brisa traz até mim.
Fez-se silêncio. Estou no Paraíso.
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O Caminho será reprogramado: é enriquecedor o momento em que me apercebo quão bom pode ser não pernoitar nos mesmos lugares de há um ano mas descobrir novos destinos, encontrar Caminhos dentro do Caminho, disponibilizar-me para novas experiências, forçadas, casuais ou intencionais, não importa! E não me canso de adorar sentir o tempo a passar!
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É engraçado assistir ao evoluir das relações, aos entusiasmos e aos desânimos, adaptarmo-nos às circunstâncias; ao terceiro dia começo a sentir fazer parte do grupo, tal como no ano passado. Não vou atrás das primeiras impressões mas sigo as adaptações progressivas àqueles que me são próximos. É fácil trocar com desconhecidos meia dúzia de palavras para segurar um convívio pontual mas partilhar a vida durante dias seguidos com amigos ou conhecidos exige tanto mais de nós: é um desafio daqueles! Talvez esteja aí mais uma razão por que viemos fazer o Caminho.
Mós, domingo, 26 de Maio de 2019