Dia 2
Rubiães – Tui

O conforto tranquilizador ao avistarmos uma seta amarela a confirmar que estamos no Caminho – ainda que nenhuma outra variante que nos leve ao engano exista por perto – é imenso. Porque não é a aventura do incerto que buscamos no Caminho mas a evasão controlada, a dualidade que há em viver a solidão e a comunhão entrelaçadas, sentirmo-nos mais nós no meio dos outros (que são como nós); podermos pensar, reflectir, ler, escrever, observar (o que nos rodeia e o que nos assola) ou colocar de parte este abraço ao nosso âmago e “vivermo-nos” para as mil e uma conversas que aguardam por nós em cada passo, cada café ou albergue, tantas quantos os peregrinos e as gentes a quem vamos dando um pouco de nós e de quem vamos recebendo tanto mais.
As palavras pairam sobre estes dias e não as consigo agarrar todas, mas não voam suficientemente alto quanto a distância que me afasta da rotina e da vida de todos os dias, para lá das férias de Verão onde costumamos retemperar a energia. Aqui há tempo para parar e viver!
Estou numa esplanada à espera dos cinco que daqui a pouco se juntarão a nós. A Sandra e a Lu foram comprar meias (bolhas, dores e outras vicissitudes do Caminho). É mesmo bom ver a vida passar e conseguir ver-nos fazer parte dessa passagem…
O Jorge faz o Caminho pela primeira vez para, à segunda etapa, concluir o mesmo que toda a gente: o excesso de merdas que trazemos connosco – “excesso” e “merdas”. Vou ler enquanto espero pelas duas e pelos cinco, Três Homens num Bote; não me apetece escrever sobre o caminho mas sim sobre o que vou sentindo ao longo do Caminho.
PS: Ao segundo dia de impressões sinto repetir-me, escrever num ciclo vicioso de onde não tenho vontade alguma de sair.
Valença, sábado, 25 de Maio de 2019
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Tui é uma cidade linda. Gosto de falar espanhol e a rapariga do Albergue gosta da minha pronúncia: nasceu na Suíça e fala diversos idiomas com grande desenvoltura. Do Caminho também fazem parte estas interacções, pontuais, passageiras mas perenes, assim consigamos que nelas caiba algo especial. Para o ano serão outras pessoas, outros cenários, outras experiências. Falámos sobre o Caminho e o saldo de se fazer algo só. O Caminho ensina-nos a desenvolver este bem-estar com a solidão. Curioso chamarmos solidão quando estamos connosco. São as circunstâncias da língua e do significado das palavras, bem o sei, mas não deixa de me parecer que o valor do vocábulo e a carga que lhe atribuímos não conjugam um com outro. É injusto mas é a vida.
Amanhã temos uma etapa fodida. É a vida! E a vida amanhã vai ser fodida!
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[Já somos oito: o António, a Bárbara, a Lena, a Gui e a Vanda G. juntaram-se hoje a nós para atravessarmos a fronteira.]
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Fodido é também tentar adormecer com um perfume a chulé que se solta de algum par de “presuntos” no quarto onde estou. Somos cinco: eu, o António, um puto americano e dois irlandeses mais velhos. Eu não sou, o António veio do duche e o americano está calçado… cabrões dos velhos! Pelo Caminho passeiam-se todos os aromas da natureza mas alguns eram escusados (e ao meu olfacto até escapam muitas fragâncias – eu só detectaria o cheiro a gás depois de o meu nariz saltar com a explosão). É a vida! E até para adormecer a vida pode ser fodida!
Vou (tentar) dormir.
Tui, sábado, 25 de Maio de 2019