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Impressões do Caminho de Santiago

24 a 31 de Maio de 2019

Dia 1

Ponte de Lima – Rubiães

Eu não pretendia escrever uma única palavra mas…

… que estrondosa maravilha é ver a vida passar sem nenhuma outra obrigação que não a de sermos empurrados para desfrutar o momento e deixar tudo o mais para trás.

Rubiães convida-nos a parar, ler, escrever, descansar e conversar com outros peregrinos (um dos meus desportos favoritos ao longo do Caminho). Uma vez mais, as palavras afrouxam sem se aproximarem sequer da ideia do que sinto quando venho para o Caminho.

As dores nos pés, a sede, o sol a arder no pescoço e até a subida da Labruja… a beleza das privações quando sabemos haver algo que nos move além disso, apesar disso, também por isso… esta partilha de experiências e de palavras interrompidas – provavelmente para sempre – com peregrinos com quem nos cruzamos e que, como nós, vieram até este fim do mundo para que pudéssemos trocar um cumprimento, três ou quatro sorrisos e dois dedos de conversa.

A Sandra, a Lu e eu formamos o grupo da primeira parte desta viagem. Nenhum de nós sente o mesmo mas todos nos sentimos bem. É o suficiente.

O descanso tardio na camarata silenciosa, a escrita que comungo com um ou outro peregrino nas mesas espalhadas no pequeno jardim disposto especialmente para nós… chegam duas peregrinas portuguesas de Loures com quem nos cruzámos: acabou-se a escrita e recomeçou a conversa. É bom.

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A senhora do albergue é argentina e não recusa ninguém: corpos a dormir pelo chão preenchem o espaço que percorremos até à camarata. Jornalista católica de sessenta e nove anos, vive entre a Galiza e o norte de Portugal desde os quarenta. Diz que apesar de nunca antes cá ter vivido, é aqui que estão as suas origens (a mãe é galega e o pai português). Falo-lhe de Jorge Luis Borges e de Adolfo Bioy Casares (Mi gran amor – diz ela – ni tanto por las novelas que escribió sino por la persona que él era – devolveu-me quando lhe pedi uma sugestão de leitura) e de Julio Cortázar, o meu escritor favorito; sobrevalorizado segundo ela. Pertenceu à Sociedade Argentina de Escritores tendo conhecido pessoalmente Borges e Bioy Casares. Tenho pena de não me demorar aqui mais tempo pois penso que teríamos tanto para conversar!

Saímos da missa onde fomos por curiosidade: estavam a rezar o terço. Para um não crente, uma missa ainda vá agora um terço… na verdade, saí da reza para tentar conversar mais um pouco com a argentina. A igreja é, pequena, bonita e fica perto do albergue. Rubiães é pouco mais do que uma estrada por onde regressamos. Ela não está lá.

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Tenho caminhado pelo interior de mim mesmo e por mundos distantes (muitos peregrinos devem viajar pelos mesmos lugares); empurro-me para o sono no Bom Retiro, restaurante uns quinhentos metros abaixo, na estrada, enquanto olho para os peregrinos gourmet que vão ao restaurante em vez de comerem as conservas e os cozinhados que outros fazem no albergue (o peregrino brasileiro, que à tarde falava com a filha ao telefone no albergue, está sentado numa das primeiras mesas e sugere-nos algo que não recordo); eu também estou a comer com eles… sou como eles… não escrevo nem bebo mais nada hoje… o pôr-do-sol sobre a montanha em Rubiães é bonito enquanto caminhamos de volta ao albergue e eu estou com sono e vou ler Três Homens num Bote até adormecer e não queria escrever um diário desta vez mas não consigo escutar os sentimentos sem lhes dar forma e é uma merda ser peregrino gourmet mas é bom ser peregrino, muito bom; tenho que estar aqui no beliche a escrever no verso do bilhete de autocarro porque há dia que me sobra e o único lamento que levo é não ter perguntado o nome e o contacto da hospitaleira argentina.

Vou ler e não escrevo mais nada hoje.

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Hilária Dantas é o seu nome.

Noite.

Venho cá fora absorver a última réstia de luz para ler. Encontrei-a quando o vento frio virou as páginas do livro e decidi que era hora de recolher. A senhora do albergue pediu-me o contacto para podermos continuar as conversas. Uma amiga no Caminho. Só não gosta de Cortázar. Ninguém é perfeito.

Já posso dormir.

Rubiães, sexta-feira, 24 de Maio de 2019

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António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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