Impressões do Caminho de Santiago

Dia 4

Mós – Ponte Sampaio

Entre o “tudo” e o “nada” existe toda uma gradação onde por vezes me é difícil situar. Penso residir aí parte da razão pela qual nem sempre é fácil equilibrar a solidão com a convivência. Estamos continuamente a aprender e afirmarmo-nos traz um princípio de conflito em que lutamos por nos mostrarmos perante os outros de acordo com o que somos.

A diplomacia é um jogo difícil quando a genética, a aprendizagem e as contingências da vida concorrem para uma autonomia acima da média. Não é necessariamente mau pois quando ganhamos autonomia, oferecemo-nos uma liberdade que nos realiza; mas só vale a pena ser livre se o formos entre aqueles de quem gostamos: o conflito entre cedência e afirmação.

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Ao descermos para Arcade parámos (de novo) na senhora que serve café e vende pedras pintadas com a origem e o destino do Caminho: trouxe a de Ponte de Lima – Santiago para juntar à que permanece pousada na cómoda do meu quarto há um ano. São duas as pedras que agora trago comigo mas sobre a outra escreverei mais adiante.

A senhora disse que as pulseiras que ali custam dois euros podiam ser encontradas em Santiago por um euro: pequenos gestos incompatíveis com a vida de todos os dias.

A meio da etapa o António encontrou um pau para nele se apoiar durante o Caminho. Achado não é roubado disse eu, e nesse instante lembrei-me do João. Ouvi pela primeira vez a expressão da boca dele, estávamos no jantar de Natal de 2014, em casa da Inês. O episódio já me visitou outras vezes, sem trazer até mim outra sensação além de um sorriso. Hoje, um mês após a sua morte, foram lágrimas o que a evocação desse momento despertou e que os óculos escuros conseguiram conter ao entrar em Ponte Sampaio. Sem querer, foi com ele no pensamento que percorri os últimos quilómetros. Não quero usurpar uma tristeza fingida: não eramos assim tão próximos mas a partida do João fez-me (faz-me ainda) muita pena.

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O Mesón é (mais) um paraíso no Caminho: dos aposentos à simpatia do Tomás, tudo aqui facilita o descanso e anima-nos para a subida FdP com que iniciaremos a etapa de amanhã!

Depois de jantarmos no restaurante do albergue em Ponte Sampaio, o chá de camomila era da marca Tea of Life – for a fair deal. A primeira vez que ouvi falar do comércio justo foi nas aulas de espanhol do Javier (aulas essas onde conheci o António). Recordo as nossas conversas sobre livros, cinema e o sentido que as coisas (não) fazem. Creio que continuarei à procura de um sentido para tudo até que a curiosidade deixe de latejar. É também por isso que escrevo. E que me interesso pelas coisas.

Ponte Sampaio, segunda-feira, 27 de Maio de 2019

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