Impressões do Caminho de Santiago

Dia 9

Santiago de Compostela – Caparide

Madrugada em Santiago e o fim do Caminho.

Ontem atrasei a passada; queria prolongar o Caminho. Ilusão: não é a marcar passo que retemos o que nos marca mas reconhecendo que a vida vai sendo construída com experiências, cada uma com principio, meio e fim, fim esse nem sempre necessário para crescermos com as coisas boas e más, oferecendo-nos a maravilhosa possibilidade do infinito, de nos disponibilizarmos para entrar em novos mistérios, em nova vida por acontecer. Não existe o fim do Caminho mas sim o que dele retiramos, as pessoas que ele (nos) deixou e este sentimento que, pelo menos enquanto o lastro não assentar, planta em nós a crença de que somos melhores pessoas. Sinto ser hoje alguém melhor do que há uma semana. Provavelmente, será este o sentido para onde caminhamos na vida – tornarmo-nos um pouco melhores a cada dia. O Caminho “apenas” clarifica esta percepção, torna-a mais nítida, tal como os contornos da madrugada que se transformam na beleza que vamos registando em nós ao nascer de cada jornada.

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A beleza das primeiras vezes.

É bonito ver nos que fazem o Caminho pela primeira vez reacções semelhantes às que tive há um ano, tal como é bonito perceber que há em mim emoções que voltam, outras que me invadem sem as reconhecer em Caminho algum do passado e outras ainda que se desvanecem. No ano passado tudo era novidade.

Desfrutar na espuma deixada pelo Caminho pressupõe olhar para o Caminho seguinte. Nada termina com a entrada em Santiago.

Vejo neste momento a cidade ao amanhecer. A luz incide sobre a parte velha enquanto nós, sentados junto à entrada do mosteiro que nos deu guarida esta noite, aguardamos com uma calma que estranho na hora de partir. Estranho porque ao nono dia não tenho que me levantar cedo e caminhar. Nada termina com a entrada em Santiago além das dores no corpo que desaparecem como que por magia. As outras vão desaparecendo, tal como alguns peregrinos com quem nos cruzámos; outros não. O sentimento de gratidão à vida (só a ela posso agradecer já que a crença em algo para lá dela fugiu-me num passo bem mais acelerado do que aquele com que percorri o Caminho) por me presentear com experiências como esta, nunca desaparecerá (o risco em que incorro ao atirar um “nunca” para o futuro…).

Neste momento, quem ontem dizia nunca mais sobre a possibilidade de voltar ao Caminho, começa a considerar a possibilidade de voltar. É uma dúvida que nunca me invadiu. A nostalgia do regresso ainda não me visitou. A convicção em voltar aplaca-a mas o coração continua a soltar as lágrimas que os olhos tentam conter enquanto me deito nestas palavras.

Santiago de Compostela, sábado, 1 de Junho de 2019

 

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O valor de uma sombra; do piso ou da inclinação do solo que palmilhamos; das horas de descanso; de um duche de água quente, fria ou intermitente; de um colchão, mesmo que plastificado e sem resguardo mas que nos resguarda; de uma conversa; de uma partilha, seja ela um jantar, um contacto ou uma pedra; de um sorriso acompanhado de uma palavra amiga que se divide em duas outras palavras que se converteram numa saudação mágica – Buen Camino; de uma barrita energética, um café ou um menu de peregrino; de uma t-shirt lavada e chinelos no pé; de um grau Celcius a menos no termómetro do nosso esforço.

Quantos valores não nos traz o Caminho à superfície para que, primeiro na ausência e depois na presença, possamos comprovar quão preciosos eles são?

Poderia continuar a escrever eternamente que nunca sairia da ponta visível desse iceberg formado por tudo o que me atravessou no Caminho, por todos os Caminhos por onde andei. Sinto pertencer a um grupo – provavelmente pela primeira vez na vida – pois identifico-me com a alegria e a tristeza de cada fotografia partilhada, cada palavra ou comentário trocado, cada mensagem ansiosa pelo início do Caminho ou cheia de “tanto de bom” depois do seu final.

Despachei as recordações em cinco minutos sem ter propriamente destinatários: no ano passado comprei os ímanes da praxe mas quaisquer outras lembranças do Caminho merecem ser muito mais do que lembranças… uma pulseira ou um fio não pode ser apenas um objecto sem trazer consigo um significado para a pessoa que o venha a envergar. Comprei três marcadores de livros, em português. Todos eles têm uma frase inspiradora. E todos conseguem ter um cabrão de um erro ortográfico! Uma puta de uma frase em cada um e conseguiram distribuir erros por todas elas! Às vezes a pressa é má conselheira e cinco minutos talvez tenha sido um período demasiado curto mas ontem eu queria mesmo era ir para os copos.

Marquei presença na “última ceia” numa esplanada de Santiago. Aquele ambiente, aquela gente que caminhou comigo, longe ou perto, nestes dias tão cheios. Chegámos todos ao destino que nos uniu para percebermos que não foi só o final mas sobretudo o Caminho que nos aproximou; e que o único remédio para combater essa sensação de termos terminado algo que gostaríamos de ver prolongado, é voltar, ao mesmo Caminho ou a qualquer outro, com mais ou menos variantes, com os mesmos peregrinos, outros com quem queiramos partilhar este interregno ou a sós. Mas voltar! Para que a caminhada possa continuar.

Estive na Praça do Obradoiro no dia 25 de Maio de 2018. Foi esse o dia em que o Andreas terminou o seu Caminho no ano passado. Nunca nos vimos ou talvez até nos tenhamos visto. Um ano depois, ontem, conhecemo-nos no mesmo lugar. Partilhamos Caminhos, umas vezes paralelos, outras vezes concorrentes. Quando eles se intersectam aproximamo-nos dos que sentimos serem como nós; quando permanecem lado a lado, acenamos sabendo que temos companhia. E um dia, talvez os paralelos deixem de o ser e se intersectem antes do infinito. Pode ser já para o ano que se repita um encontro com alguém com quem estive ontem sem o saber.

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A t-shirt onde mandei gravar a fotografia do João por baixo do “Chegámos!!” nunca saiu da minha mochila em frente à Catedral. O gesto foi deixando de fazer sentido ao longo do Caminho. A partida que ele nos pregou um mês antes de partirmos, partindo das nossas vidas, foi batota. O destino da fotografia era uma fogueira em Finisterra. Trouxe-a de volta a casa. Também isto terá um sentido, apesar de ainda não o ter encontrado.

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O António, a Bárbara, a Gui, a Lena, a Lu, a Sandra e a Vanda G., cada um à sua maneira, ultrapassaram as dificuldades (e eu também). Não sei o que o Caminho lhes trouxe ou trará. Descobri-lo-ão após o tempo que a poeira levará a assentar.

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Depois de nove horas de autocarro no regresso a Lisboa, senti almofadas nos pés mal premi os pedais do carro. Pairei sobre a vida que havia deixado no regresso a casa… a marginal, a A5, o meu bairro… tão distantes e tão perto. Parece ter sido há uma eternidade que deixei estes marcos para encontrar os outros que me indicavam o Caminho. Por vezes a eternidade dura oito dias.

Estranhei o sofá quando me sentei para ver a final da Champions. Nunca me tinha apercebido da macieza daquelas almofadas. O jogo passou-me ao lado das imagens do Caminho que me desviavam o olhar.

Tirei os ténis e vi os pensos higiénicos que a Lu lá colocou para fazerem as vezes das palmilhas que se estavam a desfazer. Estes já fizerem os seus Caminhos. Deixo os pensos para que se gastem nas últimas caminhadas. Haverá forma mais bonita de terminar este punhado de impressões sobre o Caminho de Santiago do que com as palavras “pensos higiénicos”? Claro que sim: A Vanda A. e a Liliana vieram despedir-se ao nosso albergue. Subiram a escadaria até ao mosteiro para um último adeus em Santiago, equivalente a um “até já” em Lisboa. Acompanharam-nos na última caminhada à estação dos autocarros. O Caminho continua.

Caparide, sábado, 1 de Junho de 2019

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