Dia 10
Epílogo

Acordei sete horas depois de adormecer!
Uma vez mais, tudo o que Caminho me ofereceu rodopia num turbilhão de estados de espirito e não consigo dizer muito acerca daquilo que vai permanecer. O tempo encarregar-se-á de desvanecer as tristezas e algumas alegrias – por isso voltarei – mas outras ficarão guardadas a caminharão comigo neste intervalo do Caminho. E se este efeito, este bem-estar, esta plenitude de alma que mal cabe numa inspiração profunda antes de o médico encostar o estetoscópio e dizer outra vez, começar a esmorecer, será esse o sinal do regresso.
Mas o verdadeiro desafio está neste intervalo, nesta continuidade velada que eu gostaria de tornar real sem vinte ou vinte e cinco quilómetros por dia nem as noites nos albergues. Este tanto que o Caminho me traz e que não me cabe no peito, num texto, nas centenas de fotografias que não captaram mais do que um vislumbre do que vi e do que senti, este tanto continua comigo durante o tempo que me conseguir lembrar das dores nos ombros, nos pés e nas pernas, de todas as contrariedades e desconfortos que fizeram de um gole de água fresca um copo de Barca Velha, de um sitio para dormir uma suite no Four Seasons, ou de um menu de peregrino uma refeição no Daniel. Durante o Caminho as coisas têm outro valor, um valor que a rotina trata de velar com mil e uma distracções. Ter presente esse valor imenso em muito do que vivi nos oito dias de Caminho trá-lo para junto desta outra vida que, sendo distinta, não deixa de ser a mesma, até ao momento em que, à medida que os Caminhos se forem sucedendo uns aos outros, eu deixe de perceber se o Caminho é um intervalo da vida ou se se converte na própria vida. Então, o fim deixará de vez de ser importante.
Os meus companheiros de Caminho… na semana mais quente do ano foram heróis com bolhas nos pés, unhas a saltar, dores no corpo, pernas inchadas, alergias e quebras de tensão. Não correu como planeámos mas sim como o Caminho permitiu que acontecesse. E ainda bem que nos atrasámos: de outro jeito, não teríamos conhecido o albergue municipal de Mós ou o fantástico O Mesón em Ponte Sampaio, não teríamos tido a oportunidade de nos readaptar às circunstâncias mas sobretudo, não teríamos conhecido os peregrinos que conhecemos neste Caminho, sem dúvida os melhores com quem nos poderíamos ter cruzado. A todos agradeço o que aprendi, sobre uma equipa mas também sobre o papel que cabe a cada um de nós, quando falar e quando calar, o que corrigir e o que manter, como equilibrar o andamento…
Se deixasse estas palavras para daqui a uma semana ou um mês, a preocupação com a estrutura mataria a liberdade com que me entrego a elas para decifrarem o que me vai na alma. Durante estes dias a liberdade para escrever tudo o que sinto é total, não está formatada à vida de escritório, de fim-de-semana, de jantares e cinemas, da cidade. É aproveitar o momento sem medo. Quem fez o Caminho identificar-se-á com uma ou outra passagem mas quem não o fez, não sei se verá aqui um conjunto de ideias desconexas (é verdade) sem sentido ou se alguma centelha de vontade se avivou para experimentar o Caminho.
Não há formas perfeitas de terminar porque o Caminho não termina embora o texto sim, por isso só me ocorrem duas palavras para por um fim a tudo isto: Buen Camino!
PS: Há pouco, depois do duche, fui tomar o pequeno-almoço à rua. De chinelos… o Caminho continua.
Caparide, domingo, 2 de Junho de 2019
PS: No relato do quinto dia, referi um texto que havia deixado ao Tomás, o dono do albergue O Mesón em Ponte Sampaio, para ser lido nas escolas da região. Quando este “diário” não passava ainda de um esboço, dei-o a ler a quem caminhou comigo e a alguns peregrinos que conheci no Caminho, incluindo a Vanda A.. Em Agosto, uma amiga sua, a Sandra (sem relação com a Sandra do meu grupo), foi (ainda está a) fazer o Caminho e ficou hospedada no O Mesón. A Vanda pediu-lhe para perguntar ao Tomás se era possível tirar uma fotografia ao texto que eu lá tinha deixado. Não era. Mas o texto foi levado pela filha dele para a escola, foi lido e posteriormente selecionado e traduzido para fazer parte de uma exposição municipal. Ter sabido isto é muito melhor do que receber de volta o texto que lá deixei.
Caparide, sábado, 24 de Agosto de 2019