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A ditadura da juventude

O ser humano foi o último animal a povoar este planeta, mas rapidamente lhe tomou as rédeas e o tentou dominar. Das árvores até ao chão foi um passinho lento que a rapidez apanhou. Levantou a cabeça e o pescoço estreitou-se permitindo o aparecimento da linguagem. Comunicar e saber viver com os outros, em sociedade, foi uma conquista a pulso. Uma eternidade temporal. A humanização foi feita por etapas. As cordas vocais ficam mais soltas e as vocalizações saem dando origem à fala. Uma inovação. Depois olham para as mãos e usam-nas para fazer instrumentos, para os ajudar nas labutas diárias e necessárias. Finalmente perdem os instintos animais, de sobrevivência e de reprodução para dar lugar à chamada humanidade. Evolução, foi o nome encontrado para esse avanço. Sentimentos e emoções que servem de guia e de conforto. Saber viver num grupo muito grande, criar uma família alargada e resolver as questões colocadas, fez deste ser o chamado Homem, o animal superior.

Do Paleolítico ao século XXI, foi um caminho espigoso e armadilhado que se percorreu. Em nada fácil, em nada animador. Da luta da sobrevivência entrou-se na futilidade. Do nada se chegou ao tudo e o desperdício fez parar as mentes. Estamos no século XXI e pelos vistos ninguém quer envelhecer. Vive-se uma autêntica ditadura da juventude e quem não a seguir é alguém que fica mal visto. Deixar o corpo seguir os seu ritmo natural e responder à gravidade tornou-se um crime quase institucionalizado. Surgem as dietas milagrosas, sobretudo quando o sol se lembra de dizer que existe e que vai abrir os seus braços em calor. Quem não frequenta um ginásio é um marginal e certamente que se prepara para algo de muito perigoso. Um corpo bem delineado é que está na moda!

A falsidade e a falta de valores leva a que se perca a essência do ser humano, aquele que nasceu incompleto e que se vai descobrindo ao longo do tempo. Ser velho é sinónimo de viver muitos anos, de ter experiência de vida, de se ter conseguido ultrapassar várias barreiras e de ter a certeza que vai continuar. Ser jovem é estar ainda numa certa ingenuidade que querem que funcione em pleno. O corpo é somente o invólucro, mas o que o habita é essencial. Se só se pensar em músculos e definições corporais, o cérebro fica em estado de choque e não quer funcionar. Esses seguidores cegos atrofiam o pensamento e a mente recusa-se a funcionar. O corpo é que manda e sabe e de nada serve esta inútil tentativa de retrocesso. O tempo não pára e não perdoa.

Uma ruga é uma marca de um riso ou de uma dor, uma estria é a lembrança do filho que viveu seguro durante meses, um “pneu” é a recordação das reuniões com os amigos e das alegrias partilhadas. Saber envelhecer é uma arte que muitos não querem aceitar. Os corpos deixam de obedecer e crescem livres de amarras até chegarem ao ponto que entenderem. Os cabelos são brincalhões e mudam de tonalidade para obrigar a novas estratégias e outras combinações. Os braços ficam continuamente na posição do adeus, porque algo partiu e já não regressa. A juventude é somente uma fase, mas a maturidade é um estado que se quer manter. Onde está a dificuldade para aceitar estes factos?

Quem não sabe aceitar a passagem do tempo torna-se ridículo. É uma questão de inevitabilidade. A frescura perde-se, mas ganha-se em sabedoria e alguma experiência que permite fazer balanços mais equilibrados. Quando tudo se desmorona, quando o corpo cede, após tantas pressões, com plásticas, com dietas, com medicamentos e mezinhas é a decadência que toma a dianteira e é muito feio de se ver. A vida aparece, cheia de energia, para humilhar todos aqueles que estavam convencidos de que a enganavam. Saber viver é saber envelhecer e retirar todos os dividendos possíveis.

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